Quantcast
PORTUGAL FAZ-LHE BEM

Testemunhos de história e de tradições

Conhece os museus da sua terra? Margarida, do blogue Pano Pra Mangas, traça o roteiro museológico da capital algarvia. Entre vestígios históricos, lendas e tradições, os tesouros desconhecidos estão muitas vezes à porta de casa.

Muitos de nós, quer vivendo em vilas ou cidades, raramente nos lembramos que uma ida a um museu ou núcleo museológico local é um bom programa para o fim-de-semana, no entanto se viajamos para o estrangeiro há sempre “aquele” que não nos falha e do qual falamos maravilhas, quando afinal maravilhas semelhantes poderão estar mesmo ao lado de casa.

A primeira vez que fui a um museu foi pela mão da minha avó paterna e deveria ter uns 5 ou 6 anos. Dessa visita guardo na memória um susto de morte! No então Museu Etnográfico que hoje tem o nome de Museu Regional do Algarve existia – e ainda existe – uma ala parcialmente dedicada a cenários e trajes algarvios, onde manequins de tamanho real envergam fatos como se de há uns séculos se tratasse. A razão do meu susto? A mulher do bioco! – o bioco era uma capa preta, usada pelas mulheres na, então, vila piscatória de Olhão, que as cobria da cabeça aos pés, sendo quase impossível ver-lhes um centímetro de pele. Esta peça de vestuário foi proíbida nos anos 30 do século XX por encobrir, um sem número de vezes, ladrões e malfeitores. Recentemente foi recuperada e reinventada, apresentando agora variantes coloridas que reflectem as cores da cidade (o laranja do mercado municipal ou os azuis da Ria Formosa, por exemplo).

Anos mais tarde este museu fechou e assim esteve durante um longo período de tempo até que foi reaberto em 2009.

Ficámos com o Museu Arqueológio, actualmente com a denominação de Museu Municipal. No mesmo edificio funcionava, também a Biblioteca Municipal em co-existência com Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian as quais eu visitava com frequência, pois a informação para trabalhos escolares e universitários não se encontrava à distância de um teclado, onde hoje os miúdos fazem “click”, e quase como por magia a informação que precisam está lá e copiam quase tudo. Sim, copiam: “ctrl C” + “ctrl V”.

Quem não conhece Faro pode pensar: como é que uma cidade tão pequena pode ter dois museus, aparentemente – dada a designação de um e de outro – tão parecidos? Haverá espólio para tanto? A resposta é sim! E ambos guardam séculos de história...

No Museu Municipal é possível encontrar vestígios da influência romana e muçulmana na região, pinturas de várias épocas, exposições temporárias... No que às antiguidades diz respeito, a minha obra preferida é o maravilhoso mosaico que representa o deus Oceano, que cobre a quase totalidade do chão de uma das salas. Contudo, a sala que me enche a alma é a que alberga uma colecção de óleos do pintor Carlos Porfírio e que tão bem retratam algumas lendas algarvias, como a Lenda das Amendoeiras ou a Lenda da Moira Floripes. Este espaço cultural da cidade está instalado no que foi o Convento de Nossa Senhora da Assunção e, em termos arquitectónicos vale a pena levantar os olhos para os tectos e apreciá-los quer pela sua simplicidade, quer pela sua beleza.

O Museu Regional, não muito distante, guarda tradições, costumes, objectos que mais dia menos dia passarão a ser, igualmente relíquias: cenas de um quotidiano há muito desaparecido estão lá representadas, trabalhos de empreita, rendas, coisas do mar e da terra, entre outros... Também aqui há uma peça que faz as minhas delícias – e não, não é a mulher do bioco que continua lá, e eu continuo a olhá-la de solsaio! – : uma representação do que era a Armação da Pesca do Atum: a minúcia, a arte e a ciência por trás de um esquema de redes, postes, barcos, boias e afins. Só tenho pena que deste renovado museu tenham sido retiradas algumas peças que lá havia, nomeadamente um conjunto de pegas feitas pela minha mãe – e das quais guardamos alguns exemplares - e que, apesar de já ter perguntado, não me sabem dizer onde foram parar.

Fica o convite para quem cá está ou para quem cá vier. E já agora, dêem um pulinho ao Centro Interpretativo do Arco da Vila, vejam a Baixa de outra perspectiva e observem os ninhos das cegonhas mais de perto.

Nota: Todas as fotos foram tiradas sem o uso de flash e com a devida autorização do Dr. Marco Lopes,
Director do Museu Municipal de Faro. Muito obrigada pela disponibilidade e colaboração.

A autora e o blogue
Inseparável da máquina fotográfica e do bloco de apontamentos, quando não anda em trânsito Margarida Vargues vive em Faro. Professora de Inglês de formação, tem uma mente irrequieta que a faz querer saber um pouco de muitas coisas, criou o blogue Pano p’ra Mangas em 2005 para mostrar os seus trabalhos manuais e outras ocupações das horas livres. Em 2012 foi para Londres onde ficou um ano e meio. Regressou ao Algarve onde vive mas alimenta o desejo de viver no Porto. O seu tempo é passado entre livros, aulas de ballet, marketing digital e o seu mais recente projeto como wedding planner.
Blogue
Facebook

 

Textos anteriores no Lifecooler:

Uma t-shirt por dia, não sabe o bem que lhe fazia

2016 - um ano com direito a bónus

A tradição já não é o que era

A farmácia numa colher de chá

Eu, petisqueira, me confesso

Ria de Alvor, um berço da Natureza

DOP ou não DOP eis a questão

Um triângulo amoroso entre o rio, a ria e o mar

À sombra na relva fresca (Alameda João de Deus)

Ilha do Farol - um paraíso entre o mar e a terra

Por Margarida Vargues | Pano Pra Mangas 2016-0511

Receba as melhores oportunidades no seu e-mail
Registe-se agora

Boa
Vida