Na pista
Pintado de branco e com ar simpático, o Cecília, está “ancorado” no aeródromo de Alvor. Cordas tensadas com contrapesos fixam as asas de modo a prevenir que ventos mais fortes as possam danificar. Junto às entradas de ar, duas protecções almofadadas impedem os pássaros de nidificar. São mimos feitos de acordo com as regras de segurança, porque voar com responsabilidade exige que a máquina esteja sempre 100% operacional.
O piloto vai libertando o avião dos seus adereços, faz a famosa inspecção de 360º, rodeando-o numa circunferência, verificando asas, fuselagem, trem de aterragem, etc.
Depois, roda o hélice duas vezes para olear os pistões, até que finalmente põe a máquina a trabalhar. Curiosamente antes de carregar na ignição, abre a janela e grita: “Clear!”
Aguarda dois segundos e o hélice começa a rodar. Trata-se de um procedimento de segurança, mesmo quando aparentemente nós os dois somos as únicas pessoas na pista. Não vá alguém ser apanhado desprevenido.
Já com a máquina em movimento, rolamos até à pista e comunicamos com o controlador do aeródromo. Temos luz verde. Contra o vento, o avião acelera a rotação e poucos segundos depois, já está no ar.
A 1000 pés...
A mil pés de altitude, aproximadamente 300 metros, somos espectadores privilegiados da costa algarvia. Da cabina do Cecília, um Cessna monomotor, avançamos pela linha costeira a cerca de 200km/h. Olhando para baixo, descortinamos uma certa geografia da qual não temos a noção quando estamos em terra. As estradas, as casas ou até os cursos de água parecem ser mais organizados. Tem a sua piada, a Via do Infante ou mesmo o pitoresco comboio da linha do Sul, puxado por velhas locomotivas laranja. Sobrevoamos Alvor, mas podia ser uma cidade de legos, que a diferença não seria muita.
Contrariamente ao que supunha, a estabilidade desta pequena aeronave, que transporta apenas três passageiros, mais o piloto, é perfeita. Dá para ler até o jornal, tal como num avião de carreira comercial que voa quatro vezes mais depressa e uns milhares de metros mais alto.
Observando a panorâmica a vista de pássaro, não consigo evitar ouvir a conversa dos controladores do aeroporto de Faro, até porque levo os auriculares que me permitem comunicar com o piloto sem ter que gritar ou esforçar muito a voz. Dentro do habitáculo, apesar de confortável, as condições acústicas não são as melhores, ainda que perfeitamente toleráveis. É como um carro velho a 150 km/h, a certa altura o ruído do motor torna-se mais intenso, mas rapidamente nos adaptamos a isso.
De volta aos controladores, os nomes de código como Alfa são empregues constantemente e mesmo para quem é leigo na matéria, não deixa de ter a sua piada. O piloto Desidério Cabaço explica-me que se trata de jactos privados e principalmente os aviões de carreira comercial que comunicam com a torre de controlo para aterrarem na pista de Faro ou confirmarem a posição e o rumo no espaço aéreo português.
Normalmente estas conversas ocorrem em inglês, a língua homologada pelo Eurocontrol (organismo comunitário que trabalha na harmonização das regras da aeronáutica nos países de UE).
Os brinquedos do Avião
O Cecília, pequeno avião de aspecto modesto, engana pois esconde um manancial de tecnologia de ponta, que lhe possibilita voar independentemente das condições climatéricas. Dias de chuva ou nevoeiro cerrado, noites escuras como breu não comprometem a segurança que se auxilia num muito eficaz sistema de GPS, o qual reproduz cabalmente no ecrã mapas da região que sobrevoamos a diferentes escalas.
Outro dos brinquedos maravilha é o piloto automático, que permite fazer tudo, limitando-se apenas o piloto a girar um pequeno botão para marcar as coordenadas da altitude ou da velocidade. Apenas com um leve toque de dedos, o Cecília corrige a sua rota, invertendo o rumo de Albufeira apontando-se para a Fóia, em Monchique.
Preciso e suave, sem trepidações ou oscilações, o avião estabiliza quando encontra o rumo certo. Poupa-se muito trabalho, pois a operação de manter o avião na rota pretendida requer, para além de muitas horas de voo, mãos calibradas e seguras de quem sabe bem o que faz.
A dado momento, Desidério Cabaço desafia-me a pilotar o Cessna para descobrir a sensação. O desafio parece simples, apenas manter o avião precisamente a 1000 pés de altitude, seguindo a linha costeira. Confesso que não consegui, apesar de não me ter saído mal, mas foi evidente a falta de treino e umas centenas de horas de voo. Contudo, para um estreante, logrei manter o avião no ar sem sobressaltos ao longo de cinco minutos, ainda que não tenha conseguido fixá-lo no ponto de equilíbrio. Foi muito divertido, senti-me quase como um Saint-Exupéry dos tempos modernos.
N'Dalo Rocha 2004-06-15