Arriscar tirar o pé do chão
Já vimos que não é truque ou ilusão. Aquela rapaziada anda mesmo no ar, só com umas cordas e um pedaço de pano. Sem motor, leme, flaps ou hélices. Só a força do vento e a audácia do piloto. É preciso alguma coragem.
Misturados no meio da multidão que se espalha pela arriba fóssil, esperamos impacientemente pela nossa vez de experimentar tal sensação. Finalmente, chega o momento desejado e o instrutor Paulo Manso convida-nos a dar uma volta no seu bi-lugar. E como o peso é a dobrar, esta asa também tem uma dimensão mais generosa, de modo a permitir maior poder de sustentação.
De frente para o vento e com os “alvéolos” na mão, estamos torcidos de costas e assim que a manta se levanta, giramos 180º e corremos desajeitadamente em direcção ao vento. Com a coordenação meio desgovernada vemos a falésia cada vez mais próxima e nós com os pés no chão ainda.
Paulo Manso manda-nos correr e não parar. Por uma fracção de segundos, pensamos: “Tirem-me daqui, aonde é que me vim meter!”. Subitamente, sem esperarmos, damos um passo em falso, pois já estamos no ar.
Quando percebemos o que aconteceu, subimos entretanto uma dúzia de metros. Por baixo de nós está a falésia com rochas escarpadas e árvores. Visto de cima, até são bonitas.
Lá em cima
Dois adultos pesam à vontade 150 kg, se não mais, mas a suavidade com que se movem no ar, não deixa transparecer isso. Lá em cima ouve-se o vento que atravessa a asa que permanece esticada e estável. Dá a sensação de ser imperturbável, e nem uma rajada traiçoeira consegue desiquilibrá-la, amarrotá-la ou dobrá-la.
Devagar, ao sabor da brisa, lá vamos voando da esquerda para a direita. Ao fundo avistamos a Costa e a seguir Lisboa, a Ponte e o Cristo Rei. A visão é fantástica e agora percebemos exactamente porquê que o piloto suiço que conhecemos há pouco nos dizia que voar na Caparica é melhor que valium. Não há stress que resista. Tudo acontece devagar, como um filme em câmara lenta.
Costuma-se dizer que quem anda nisto tem a bichinho de voar e que normalmente os instrutores são antigos pilotos da Força Aérea ou pára-quedistas. No caso de Paulo Manso, quis o destino que também ele estivesse ligado à Força Aérea mas como mecânico de voo. E apesar de na altura ficar em terra, decidiu descolar, sendo um dos pioneiros da modalidade em Portugal.
Os artistas do páraquedas
Nas arribas fósseis da Caparica, em plena Mata dos Medos, perto do quartel da NATO, existe uma pista onde uma dezena de amigos junta-se para voar de parapente. O momento é escolhido pelos meteorologistas, que anunciam a chegada do bom tempo para a modalidade, ou seja, dias de vento favorável.
Com as correntes que sopram do mar e batem frontalmente nas falésias, a asa levanta-se e os pilotos quando a postos, correm para o oceano, atirando-se ao espaço.
N´Dalo Rocha 2003-09-08