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Visita à Universidade de Coimbra

Quando o saber ocupa um lugar

A Coimbra dos estudantes, do Mondego e dos amores de Pedro e Inês ganhou ainda mais encanto desde que a Universidade foi declarada pela UNESCO Património da Humanidade, em 2013. Quem soje hoje até à coroa da cidade - o Paço das Escolas - irá descobrimos os segredos de um palácio real que se tornou espaço de saber e conhecimento. Venha daí espreitar os morcegos da biblioteca joanina, a cabra que dá horas e a árvore que diz aos alunos quando devem estudar.

As oito faculdades e dezenas de centros de investigação que se estendem pelas duas margens do Mondego lembram-nos que a Universidade do Coimbra é muito mais que o Paço das Escolas mas é lá, bem no topo da Alta Universitária, que a instituição mais se confunde com a história da cidade e até do país.

Afinal, o palácio que a acolheu serviu de berço a boa parte da primeira dinastia antes de receber em definito (entre 1290 e 1537 andou a saltitar entre Lisboa e Coimbra) a mais antiga universidade nacional e uma das mais antigas da Europa. Durante largos anos (até ao inicio do século XX) deteve o exclusivo do ensino universitário português por isso ajudou a formar não só uma fatia considerável da elite política como muitos dos grandes vultos da nossa cultura.

Tamanha longevidade e influência tornou-a única e rodeou-a de tradições, rituais e até personagens singulares, como os archeiros (herdeiros da antiga Guarda Real Académica) que encontramos logo na entrada principal da Universidade: a Porta Férrea. Embora desarmados (usam a “albarda” durante as cerimónia oficias) prometem fazer cumprir as leis da universidade, incluindo a que proíbe a presença da polícia no Paço das Escolas sem autorização do reitor. Se nunca se cruzou com eles, esqueça a imagem dos fleumáticos guardas reais britânicos porque estes são bem mais simpáticos e nunca dizem não a dois dedos de conversa com os estudantes e turistas.

Ouro, tesouros e… morcegos

Para lá da imponente Porta-Férrea, construída no século XVII e encimada pela figura da Sapiência, revela-se um enorme pátio virado para o Mondego, em forma de U, onde salta à vista a estátua de D. João III, rei benemérito da Universidade. De todos os edifícios que compõem este conjunto monumental, o mais rico e opulento é provavelmente a Biblioteca Joanina, mandada construir em 1717 por D. João V. Na fachada salta à vista um portal em forma de arco do triunfo com o escudo real e uma frase em latim que a glorificou para sempre: “Esta é a sede que a Augusta Coimbra deu aos livros, para que a biblioteca lhe coroe a fronte”. Se o exterior desperta curiosidade, o interior impressiona qualquer um, desde os tetos em ilusão ótica às estantes lacadas com decorações orientais em folha de ouro do Brasil.

Entre os cerca de 60 mil livros da biblioteca estão algumas das mais importantes obras publicadas na Europa, como primeiras edições dos Lusíadas e d`A Peregrinação ou uma Bíblia hebraica do século XV que escapou à Inquisição e da qual sobraram apenas 20 exemplares em todo o mundo. Durante séculos os mais valiosos foram guardados na sala Cimélios (tesouro em latim) mas estão agora no cofre da Biblioteca Geral, embora todos possam ser consultados. Já o bom estado de conservação deve-se aos morcegos que durante o dia dormem atrás das estantes e à noite comem os insetos. O único senão é a quantidade de dejetos que produzem, obrigando os funcionários a cobrir as mesas todos os dias com grandes lençóis de couro.

No piso intermédio do edifício funciona um depósito de livros (só recentemente aberto a visitantes) onde é possível ver mais de perto alguns exemplares, bem como exposições temporárias. Depois deste há ainda um andar inferior onde, em tempos, funcionou a prisão académica já que durante séculos a universidade teve um foro (lei) próprio. Além de uma cela comum, havia também duas solitárias onde iam parar os condenados aos crimes mais graves.

Cuidado com a praxe e com o chumbo

O regresso ao Pátio das Escolas faz-se através das escadas de Minerva que, diz a tradição, devem ser subidas e descidas sempre pela direita. Uma forma de os caloiros não avistar as trupes de praxe que se escondiam num canto. Quem era apanhado dificilmente escapava ao raspanço e… adeus cabelo. Junto à escadaria fica um lírio de edron, conhecido por árvore do livro de ponto, porque ganha flor em maio, antes da época dos exames. Outrora os alunos regulavam os estudos pela altura que surgiam as primeiras flores. Quem se atrasasse um pouco mais tinha o ano perdido.

Segue-se a visita à Capela de São Miguel (século XVI) onde sobressai no exterior um belo portal manuelino e lá dentro impressiona o órgão barroco em talha dourada com cerca de 2 mil tubos. De tão grande quase desvia as atenções para o resto do espaço mas também vale a pena admirar os azulejos, os retábulos e o púlpito onde o Padre António Vieira proferiu o último discurso antes de ser preso pela Inquisição.

Nos arredores do claustro da rainha há um pequeno azulejo que passa despercebido a todos os visitantes mas é conhecido entre os estudantes que fazem questão de o pontapear por três vezes. Isto porque tem a imagem de uma raposa que (tal como eles) é morta pelo… chumbo. Ali ao lado fica um dos espaços mais icónicos da universidade – a Via Latina - cujo nome deve-se ao facto do latim ter sido (no século XVIII) a única língua permitida debaixo daquelas arcadas.

Que cabra és!

No interior do antigo paço real há várias salas de visita obrigatória, a começar pela Sala Grande dos Atos ou Sala dos Capelos, chamada no passado por Sala do Trono porque era o local onde o rei tomava as decisões estratégicas e promulgava leis. Agora recebe os eventos mais importantes da universidade, como a tomada de posse do reitor ou a abertura solene do ano letivo. Remodelada no século XVII, tem em redor quadros com todos os reis de Portugal menos… os Filipes.

A dois passos dali fica a sala do Exame Privado, decorada com retratos de antigos reitores e emblemas das várias faculdades. Mas antes disso vale a pena fazer um desvio até à varanda desta ala e admirar as vistas privilegiadas para o Mondego e parte da cidade. Ainda pelo interior do antigo palácio não deixe de conhecer a Sala das Armas, onde estão guardadas as alabardas (armas) da Guarda Real Académica, e a Sala Amarela, antiga ala dos infantes, pintada com a cor do curso de medicina.
Para terminar a visita nada melhor que subir até ao alto da Torre da Universidade, construída no início do século XVIII, com o seu relógio e quatro sinos. Um deles é conhecido na gíria estudantil por a “cabra” e toca religiosamente às 7h30 e 18 horas durante um quarto de hora académico. O nome vem dos tempos em que os estudantes chegavam ensonados à universidade, olhavam para a torre e para o sino e diziam… que cabra és!

Para atingir o topo dos seus 24 metros é preciso subir a nada mais nada menos que 180 degraus mas, no final, o esforço é recompensado com o mais surpreendente (e talvez) mais bonito panorama de Coimbra. Um cenário de 360 graus que nos impele a rodopiar várias vezes sobre nós mesmos à procura do próximo deslumbramento. A certa altura fixe o olhar na Rua da Sofia (na Baixa) e no resto da Alta de Coimbra, espaços que partilham com a universidade o estatuto de Património Mundial da Humanidade. Não se vá embora sem visitá-los também. No final há de perceber as palavras do poeta e concordar que Coimbra tem mesmo mais encanto na hora da despedida.


Visita à Universidade de Coimbra

Morada: Largo da Porta Férrea
Telf.: 239 242 744
www.uc.pt/informacaopara/visit

Preço: 20€ Visita guiada completa (Do Paço à Escola)

Distância de Lisboa: 206 km
Percurso recomendado: A1 e A31
Custo das portagens: 13.75€

Distância do Porto: 120 km
Percurso recomendado: A1 e A31
Custo das portagens: 7€

 

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