Vila do Bispo

Ir a Vila do Bispo e descobrir um Algarve pouco turístico, com praias pequenas sem muita gente, comer os petiscos da terra e passear numa das zonas mais ventosas de Portugal.

Às seis da tarde não é fácil beber um copo. Cafés, bares e restaurantes há muitos, só que estão quase todos fechados até às sete. Depois o ramalhete compõe-se. É um ritual curioso que não passa despercebido a quem passeia na Praça da República. Uns acham graça, mas outros reclamam. "Onde é que se bebe uma cerveja aqui?". Definitivamente, este não é o Algarve turístico a que nos habituámos, onde os empregados de esplanada passam o dia a gritar pregões para assediar turistas. Vila do Bispo é um lugar pacato, com casas pequenas, geralmente de um piso só, e em muitos aspectos semelhante a tantas aldeias alentejanas. Pessoas que andam a pé e alguns idosos de mota, mais propriamente de Famel, com capacete casca de ovo. Uma cena clássica do país profundo. O modo de falar, esquisito, assemelha-se mais aos ilhéus com o seu assento fechado do que com os algarvios, como se os Açores tivessem alguma costela algarvia.

O vento e o tempo

Rodeada por um mar de campos de trigo que esvoaçam ao sabor das fortes rajadas de vento, Vila do Bispo parece uma guardiã, imóvel, controlando o planalto do cimo da colina. O vento vem do mar, e é bom não esquecer que Sagres está a apenas a sete quilómetros, e mesmo ao lado, o imponente cabo de São Vicente.

O clima é ameno e durante o verão faz sempre calor, enquanto houver sol.

Porém, à noite a temperatura baixa consideravelmente e um casaquinho pelas costas aconchega sempre mais o corpo.

Ir à praia

Ao contrário das praias intermináveis da Ria Formosa, por cá são bastante pequenas, e formam-se entre as enseadas alojadas no meio das falésias. Ainda assim, é difícil encontrar uma praia a abarrotar de gente. Sobra sempre espaço para toalha, sombrinha e saco. Areia branca, água limpa e cristalina. Mas não se iluda, porque também é fria e até é normal os pés ficarem um pouco roxos. O melhor é fazer um aquecimento antes de entrar. A cerca de 18 graus centígrados, o choque térmico é violento. E para distrair o pensamento do frio, é olhar a colorida fauna dos veraneantes. Cerca de metade é estrangeirada, maioritariamente nórdicos, os restantes é mais português suave. Chamem o Zezé Camarinha.

Se quiser ir à praia, perto de Vila do Bispo está a praia do Zavial e da Ingrina, ou então a Baleeira e o Martinhal mais perto de Sagres. A norte do cabo São Vicente, Castelejo, Cordoama e Barriga. Dito e feito, agarre na toalha e aproveite o sol. Tenha é cuidado é com as ondas, que o mar é traiçoeiro.

Os pitéus da terra

Zona de costa tem sempre bom peixe e os petiscos do mar são afamados por estas bandas. Os perceves, (pequenos crustáceos) sabem melhor acompanhados de uma imperial geladinha. São muito apreciados em Vila do Bispo, onde há vários restaurantes que os fazem como especialidade da casa. Mas é preciso não esquecer e encomendá-los de véspera.

A sopa de peixe é outra iguaria local que justifica uma ida ao restaurante Retiro dos Pescadores em Sagres. Uma entrada especial, servida numa malga bem atestada, onde se comem pequenas postas de vários tipos de peixe misturadas com massa cozida. A cor alaranjada resulta da própria gordura que o peixe libertou quando foi cozido. Servida a ferver, é de chorar por mais. Depois janta-se, peixe ou carne e pondera-se a hipótese de acabar a noite a beber uns copos em Sagres ou Vila do Bispo, para ajudar a digestão.

N'Dalo Rocha 2001-08-22

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