A pouco mais de 100 metros de altura, a vista perde-se ao longo de quilómetros acompanhando o Tejo. Por detrás das curvas da encosta, o rio esconde-se para voltar a aparecer mais adiante. Entrincheirados no posto de observação da Quercus, os visitantes conseguem ver durante todo o ano grifos (principal espécie abutre) e águias de bonelli. Imponentes, passeiam no ar toda a sua classe, exibindo uma envergadura superior a dois metros e meio com as asas abertas. Na outra margem do rio está Espanha, mas isso pouco lhes importa. Imperturbáveis, deambulam por entre as margens à procura de uma corrente de ar quente para se elevarem, na expectativa de avistarem alguma presa por entre as encostas escarpadas. No meio desta imensidão de espaço, um olho menos treinado poderá ter alguma dificuldade em vê-las logo à primeira tentativa. "Olha ali mais um abutre do Egipto" aponta o coordenador da Quercus, Paulo Monteiro. Com alguma concentração é possível encontrar no meio do céu um ponto indefinido. E recorrendo à ajuda dos binóculos, lá se descobre que é um casal de abutres. O crepúsculo é talvez a melhor altura do dia para se estar aqui. Se o vento estiver contra nós, não é difícil descobrir um veado a ruminar no meio da vegetação das encostas. Mas assim que detectam a presença humana batem em retirada. Em época de caça em Espanha, é frequente ver veados em fuga a atravessarem o rio a nado para Portugal. Javalis também os há, mas mesmo com uma boa dose de sorte, é difícil encontrar mais algum vestígio para além de raízes arrancadas.
Observar animais, é apenas uma das actividades que pode fazer com o núcleo da Quercus no Tejo internacional. Ao longo dos 170 hectares que constituem esta reserva ecológica, é possível optar por entre os oito percursos pedestres existentes. De cantil e mochila às costas, só precisa de levar o guia da reserva para se orientar sozinho. Se tiver dúvidas tente seguir as marcas pintadas nas pedras. Os mais preguiçosos podem fazer alguns passeios de carro e as BTT também são bem vindas. A melhor maneira de ficar a conhecer é embrenhando-se por entre os campos de matagal mediterrânico e sentir a fragrância do rosmaninho, tão característico desta zona. À medida que se avança, sente-se o ruído das pegas azuis (aves que vieram da China com os descobrimentos) que se atravessam à frente dos carreiros com o seu voo irregular. Mas de carro, bicicleta ou a pé, é proibido deixar de fora do itinerário a zona dos Alares. Seguindo a estrada de terra batida que vem do asfalto até ao rio, vire no cruzamento ao lado do antigo posto da guarda fiscal. Quase sem se aperceber terá chegado a uma impressionante aldeia fantasma.
A guerra das terras
Quem chega aos Alares não tem grande dificuldade em imaginar como seria a vida naquela aldeia. Por entre um prado cheio de erva e malmequeres, surgem cerca de 60 casas de xisto relativamente bem conservadas. Duas delas, das poucas que ainda têm tecto, são usadas pelos pastores para guardar palha. Há 80 anos que as gentes invadiram os Alares, Cubeira e Cegonhas Velhas, após uma acesa guerra com os populares da vizinha aldeia do Rosmaninhal que, munidos de enxadas, paus e pedras, invadiram a Cubeira. Reza a história que esfolaram borregos vivos, partiram o forno do pão e os potes de mel entornados "corriam pelas ruas abaixo, qual torrente invernosa".
Tudo aconteceu por volta de 1922 quando um dos netos do Visconde Mourão, um dos quatros herdeiros das terras, vendeu a sua parte às gentes locais. Pensando que tinham direito a tudo, os novos proprietários deixaram de pagar a renda aos netos do visconde. Impotentes, os outros herdeiros nada puderem fazer para cobrar a renda. Até que venderam a sua parcela à população do Rosmaninhal, dez vezes superior à dos Alares, Cubeira e Cegonhas Velhas. Durante dois anos foi declarada guerra e toda gente andava armada no campo. Após a invasão, as terras de cultivo foram divididas em terrenos chamados sortes. Fugidas, as gentes dos Alares, Cubeira e Cegonhas Velhas, formaram as povoações da Soalheiras e Cegonhas Novas que ainda hoje existem.
N'Dalo Rocha 2001-05-31