A ''Boneca'' de Cascais
Já experimentou dar um passeio com a “Boneca” pela Baía de Cascais? Todos estão convidados, amigos, familiares e também crianças, devidamente acompanhadas, é claro. E o que tem isso de desafio? Tudo. Para começar a boneca não é nenhum brinquedo ou touro mecânico onde todos montam. Trata-se de uma embarcação pequena, mas o tamanho não é tudo na vida. Este barco de nome engraçado, leva cerca de dez pessoas (à vontade), se bem que tivesse sido construído para transportar até vinte. Nessa altura (1924) até tinha quatro velas, por isso a velocidade que atingia era muito superior, mas o objectivo também era outro: participar em regatas. Agora, apesar de navegarmos só com uma vela, ainda conseguimos sentir alguma emoção que este desafio proporciona. E que o diga quem auxilia na tarefa de içar a vela. São precisos três homens para tal e ainda assim o esforço está bem estampado nas suas caras.
Enquanto isso elege-se um novo “homem do leme”. Este que foi agora nomeado, tem sete anos e nome estrangeiro que soletra depressa e que ninguém fica a perceber, tal é a concentração do momento que está a viver. Depois de algum tempo em pé a segurar na cana de leme, decide sentar-se, ainda que não chegue com os pés ao chão, o que não é importante. Afinal, o que conta é o lado para onde se dirige a canoa e essa preocupação está bem entregue. Enquanto isso os três homens continuam a fazer força. Têm sorte, pois hoje em dia a “Boneca” tem motor e o trabalho está claramente mais facilitado. Parece compreensível, já que as docas foram substituídas por marinas, e desta forma um impulsor é essencial para se fazer as manobras de saída e acostagem. Depois valha-nos o vento e a vela que é triangular. Só falta mesmo o astrolábio, essa escultura arcaica com ares de compasso, mas já não se usa.
A família
Também os barcos têm família e este como não é excepção pertence à das canoas do Tejo, aquelas que noutras alturas faziam a travessia do rio. Eram ligeiramente maiores do que esta em que navegamos e tinham por nome completo canoas-cacilheiras porque o destino era Cacilhas. Mas nós não vamos até lá. É certo que temos motor, mas como a ideia é ficar a compreender um pouco melhor o funcionamento das embarcações à vela, só viajamos com a ajuda do vento e numa hora e meia que temos de passeio, não podemos embarcar em tal aventura. E assim se passeia pela baía de Cascais. Salvo seja, porque ainda se consegue chegar ao Estoril e o que é mais importante, sem filas. O comboio também não apanha trânsito, afinal tem a linha só para ele e em breve deixamos de o ver, já que corre mais depressa.
Para quem tem dúvidas quanto ao local em que se encontra, facilmente fica sem elas, já que as letras "garrafais" pintadas a vermelho do casino servem de ponto de referência. Quase que nem seria preciso ter faróis nesta costa… Ao longe vê-se São Julião e o farol do Bugio, mas ainda que consigamos atingir os oito nós (cerca de 15 kms/hora) temos que contar com o tempo de regresso.
Paula Oliveira Silva 2002-10-15