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PORTUGAL FAZ-LHE BEM

Um segredo escondido no Maciço de Sicó

Carla e Rui, do blogue Viajar entre Viagens (eleito pelo público Melhor Blogue de Viagens na BTL 2014) levam-nos a conhecer o Vale das Buracas.

Por Carla Mota e Rui Pinto, Viajar entre Viagens

O relevo calcário do Maciço do Sicó, no centro de Portugal, representa um reduto paisagístico dominado por superfícies secas, com vertentes de rocha nua misturada com vegetação arbustiva mediterrânica. Por aqui, as comunidades rurais estão limitadas pelos recursos hidrícos disponíveis. Numa região onde a água superficial é praticamente inexistente, predominam vales secos e depressões cársicas ocupadas por culturas de sequeiro e pastoreio. As águas escoam de forma subterrânea, numa rede densa de grutas, que se estendem ao longo da Orla Ocidental portuguesa e que alimentam os aquíferos da região.

A norte da serra do Rabaçal, a poucos quilómetros de Condeixa-a-Nova, a estrada municipal 609 leva-nos até à aldeia de Casmilo. Uma aldeia serrana esquecida, povoada com pouco mais de uma dezena de idosos, de onde os jovens fugiram e os risos das crianças nas ruas são uma memória longínqua. Casmilo não é uma aldeia diferente de tantas outras. É o retrato de um país desigual, com dois ritmos diferenciados: um urbano, outro rural.

O que nos trouxe a Casmilo foi o Vale das Buracas, um vale com vertentes abruptas e nuas, onde existem vários abrigos rochosos, as chamadas “buracas”. Há outros locais no Maciço do Sicó com buracas semelhantes, como são os casos do Vale do Poio ou do Vale de Covões, mas aqui, em Casmilo, este vale encantador apresenta a maior concentração de buracas do país.

Recentemente foi criado um percurso pedestre que tem início na aldeia de Casmilo e percorre a paisagem cársica da região, atravessando campos de lapiás (formas de rocha nua acinzentada, perfurada e lavrada por sulcos mais ou menos profundos e estreitos), vertentes “povoadas” de espécies mediterrânicas, áreas deprimidas ocupadas por milho e alguns produtos hortículas e oliveiras rodeadas por circulos de rocha calcária. Este percurso pedestre permite conhecer as limitações naturais da região, bem como apreciar a forma como as populações ultrapassaram estes condicionalismos e viveram durante anos em harmonia com o meio.

O Vale das Buracas é a cereja no topo do bolo desse percurso. Depois de apreciar a paisagem e o modo de vida da população local, chega-se a este vale acolhedor e magnífico. As buracas podem apresentar forma elíptica ou circular e as suas dimensões são muito variáveis. As buracas mais pequenas apresentam cerca de 2 a 3 metros de largura e 1 a 2 metros de profundidade. Estas pequenas buracas quase passam despercebidas, já que as grandes buracas captam verdadeiramente a atenção do visitante. Os melhores exemplares desta morfologia podem apresentar mais de 10 metros de diâmetro e 5 a 7 metros de profundidade, fazendo com que o Ser Humano pareça um elemento insignificante na paisagem.

Os amantes da escalada há muito que descobriram este local. É provável que os encontre por lá, tentando desafiar as leis da natureza, subindo pelas vertentes rochosas do interior das buracas.

Alguns estudos de arqueologia nos anos 90 mostraram que estas buracas, ao longo dos séculos, tiveram diferente ocupação humana e serviram de abrigo aos animais.

A recente abertura de uma estrada de terra batida até às buracas veio melhorar a acessibilidade do local mas não trouxe o progresso almejado pela população. O Srº António, habitante de Casmilo, esperava que o aumento de visitantes dinamizasse a aldeia, levando, mesmo, à abertura de um café e de uma mercearia. Mas tal não aconteceu. Apesar dos visitantes e escaladores que já descobriram o Vale das Buracas, a aldeia serrana continua a definhar e permanece esquecida no Maciço do Sicó.

Os autores e o blogue
Eleito pelo público como o Melhor Blogue de Viagens no BTL Blogger Travel Awards, na BTL 2014, o Viajar entre Viagens é o resultado das aventuras de Carla e Rui, quer em território nacional, quer por esse mundo fora. Ela é de Geografia (atualmente a fazer investigação glaciar), ele é de Física. Quando não estão em trânsito, vivem e trabalham em Guimarães.
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