Um passeio pelo Sul de Portugal

Da escola náutica de Sagres já ouviu falar com certeza, mas já experimentou passear sobre as falésias ventosas do cabo mais a sul de Portugal?

O Cabo de São Vicente

Junto à fortaleza de Beliche o carro treme como se fosse sacudido por uma população ululante que o agita nervosamente. Curiosamente, ao nosso redor não há ninguém, não há viva alma, apenas o vento que sopra furiosamente vindo de trás, mas que também pode mudar de direcção subitamente, trocando-nos as voltas.
Saímos do carro mas sempre a segurar a porta com força, não vá o vento atirá-la sem dó nem piedade. Alçamo-nos e a roupa pega-se ao corpo, os cabelos esvoaçam e sentimos o primeiro impacto dessa força bruta que nos fustiga.
A poucos metros está a velha Capela de Santa Catarina. Hoje, já não se pode visitar, pois aos poucos, a erosão fez com que se começasse a desmoronar ainda que a sua fachada sul se mantenha aparentemente intacta, não obstante as inúmeras fissuras.
A seguir, atravessamos um portão e entramos no pátio da Fortaleza de Beliche, onde um conjunto de casas sabiamente construídas corta o efeito do vento como se de repente alguém tivesse fechado a porta que deixava passar a corrente de ar.
Em frente, o farol, que se pode visitar, ou não. É um critério aleatório que depende apenas da boa vontade e disponibilidade dos faroleiros. E, se por acaso estiverem muito ocupados, o que é frequente, fique com o prémio de consolação, ou melhor, aproveite a localização privilegiada e tire partido dos dois binóculos de moedas que lá estão colocados.

O que está voltado a norte, dá-nos uma panorâmica que varre o horizonte desde a continental Vila do Bispo até à mais costeira Praia da Bordeira. Mas também se exploram ao pormenor as escarpadas falésias fustigadas pelo mar violento que choca incessantemente contra estas paredes de um modo violento e brutal. Se a imaginação nos permitir, podemos até pensar que estamos na proa de um supercargeiro de pedra que impavidamente desloca toda a sua massa descomunal em direcção ao horizonte, vergando assim a força do mar. Ao longo de 2 minutos e menos 50 cêntimos no bolso estes são alguns dos pensamentos que nos passam pela cabeça, auxiliados pela magnífica visão selvagem que se tem. E para que o quadro se complete, gastam-se mais outros 50 no binóculo orientado a sul e aí, observarmos a detalhe a vila de Sagres, algum barco que cruza o oceano a caminho do Mediterrâneo, assim como a fortaleza que protegeu em tempos a Ponta de Sagres. Não deixa de ser curioso a importância estratégica que teve este mesmo lugar durante a Segunda Guerra Mundial. Histórias de faroleiros que simpatizavam com os alemães e avisavam prontamente os oficiais da luftwage (força aérea alemã), sempre que barcos britânicos se abeiravam à costa portuguesa. Pois mas história é o que não falta a este local místico a quem os romanos chamaram Lugum Cineticum, o lugar onde o sol era 100% maior e quando se punha fazia ferver o mar. Depois, também foi pilhada pelo pirata Francis Drake, sofreu com o terramoto de 1755, serviu de guarnição ao exército e já funcionou como pousada de Portugal.

N'Dalo Rocha 2003-03-10

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