Cordas e canoas
Do alto da ponte de Paredela do Vouga até ao rio são trinta e cinco metros. Aqui, onde em tempos passou o velho comboio a vapor que chegava até Sever do Vouga, tem-se uma vista imponente sobre a serra. Os pilares que entram na água contorcem-se em elegantes arcos de pedra junto ao tabuleiro. Para fazer rapel aqui requer alguma perícia, mas os monitores avisam que não é preciso ter medo, para que se deixem ir. Pela enésima vez o material é confirmado e quando tudo está em segurança, avança-se. Porém, quem não tem muita experiência nestas coisas ainda se deixa dominar pelo nervoso miudinho que nos perturba o espírito.
O mais difícil é ultrapassar o parapeito da ponte, ligeiramente mais saliente que o pilar. Vencido o medo, pé ante pé na rocha, dá-se folga à corda descendo-se sempre junto ao pilar, enquanto o Vouga vai ficando mais perto.
Quando se atinge chão firme, aprendeu-se que trinta e cinco metros é mais alto que parece e só por curiosidade corresponde a metade da altura do tabuleiro da ponte 25 de Abril. Bem, pensamentos à parte, até nem custou assim tanto e com coragem já se repetia a dose.
Depois, aproveitando que o rio está mesmo ao lado, o grupo parte para mais outra aventura, agora já em canoas.
Equipados a rigor, sempre com os inseparáveis capacetes e debaixo do atento olhar do monitores, lá vão eles a abrindo caminho rio abaixo.
Como todos se conhecem, vive-se bom ambiente com algumas picardias à mistura que se fazem por entre pagaias e cascos que quase se roçam. Brincadeira de amigos mas sem nunca comprometer a segurança. E o mais interessante é que os próprios monitores também parecem alinhar na confusão.
Ao fim de alguns quilómetros e outras tantas horas, os braços já pesam e é altura de voltar à base, tomar um merecido banho de água quente e o jantar de confraternização.
Canyoning
No dia seguinte de manhã volta-se a reunir o grupo junto à berma da estrada perto do rio. Dá-se um breve briefing a explicar a actividade e a seguir, começa o ritual. Todos vestem um fato de mergulho para manter o corpo quente. As meias são trocadas por botins do mesmo material do fato e o inevitável capacete. A proteger as nádegas que costuma arrastar-se pelas rochas leva-se uma espécie de avental de fibra, para evitar algum “desgaste” extra do nosso corpo.
Lentamente, o grupo vai entrando no rio, sempre acompanhado por vários monitores. A água até parece fria, mas depois o corpo habitua-se.
Nos primeiros metros anda-se quase de cócoras, até que logo após os pequenos rápidos que se encontra, percebe-se que a melhor posição para o corpo é a flutuar de costa sempre com os pés à frente, para travar nalguma rocha. Tal e qual como um tronco de madeira, deixando-se levar pela corrente. Não dói nada e seguindo as instruções dos monitores é seguro e ganha-se velocidade. Talvez o mesmo conceito dos parque aquáticos, quando se quer descer mais rápido por entre os tubos.
O rio não é muito profundo, embora existam pequenos ressaltos onde se perca o pé. Uma das melhores partes é um desnível um pouco mais acentuado e se pode saltar, ou melhor voar directamente para a água a partir de uma rocha a cerca de quatro metro de altura.
Depois, continua-se mais seiscentos metros e encontra-se uma enorme cascata que pode ser contornada a pé pela margem ou então, vencida com cordas. Ou seja, um rapel mais radical em plena cascata, com o jorro da água a cair-nos em cima. Até o rio estabilizar são mais uns 25 metros. Esforço grande que nos rouba energia e o corpo pede por um reconfortante almoço. Feita a digestão, parte-se para as antigas minas de volfrâmio, para o programa da tarde.
N'Dalo Rocha 2002-06-11