Cheiro de rio e de mar
Para afirmar com firmeza que se conhece bem Setúbal, tem de se passar aqui um dia inteiro a ver monumentos e a absorver história. E nem poderá faltar ao encontro marcado com a gastronomia, fértil em peixe fresco e marisco de qualidade. Lá mais para a altura do almoço, andam cheiros na rua com as brasas a grelharem todo o tipo de peixe. Por ora é cedo, remendam-se as redes com as gaivotas atentas a qualquer desperdício resultante da faina. Ainda se vê disto em Setúbal.
Um passeio pela cidade tem obrigatoriamente que começar ou acabar junto ao Sado. Talvez seja mais sensato o início. Junto ao Cais dos Pescadores, há lugares de sobra para estacionamento, se é que de carro se chegou à cidade.
Setúbal antiga, com o casario baixo interrompido pelas torres das igrejas que abençoaram a cidade, vê-se do rio, embora os arranha-céus desfeiem o segundo plano da vista. Resultado de uma urbanização desmedida e de que agora resultam queixas. É mesmo melhor virarmo-nos para o Sado.
As embarcações pintadas de cores garridas descansam depois de terem passado a noite na faina e terem descarregado no Mercado do Livramento, quilos e quilos de massagotes, sardinha, carapau, lulas e, claro, o famoso choco, um pitéu para a comunidade de golfinhos roazes que no Sado habitam (uma outra sugestão de passeio). Pregões ressoam pela praça decorada ao gosto art déco onde os azulejos e as colunas de ferro fundido se destacam. Se a casa não estivesse longe sei eu bem quem é que iria de sacos cheios.
O coração da cidade
Se foi à praça já está na Avenida Luisa Todi, a principal artéria da cidade. Os sadinos não esquecem a senhora da canção lírica aqui nascida nem Bocage, nomes impregnados na toponímia e nas casas de comércio.
Na praça onde o poeta se ergue em estátua, não há café que não se expanda em esplanada. Refrescantes repuxos de água fresca humedecem quem por eles passa como se de um spray se tratasse. Ah vento traquina! Nos bancos repousam reformados que lêem o jornal e avós que espreitam os netos correrem atrás das pombas. Um valente susto para o bando que levantou voo em uníssono enchendo o Rossio de alegria.
Nesta praça, centro dos vários centros de Setúbal, impõe-se o edifício dos Paços do Concelho. Incendiado na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 (a data diz-vos alguma coisa?) foi recuperado e ampliado décadas depois por Raul Lino.
Visitante que vem ao largo só não entra na Igreja de São Julião, se esta estiver fechada. Reedificada após o grande sismo de 1755, foi embelezada por demonstrações do manuelino de cuja altura restam dois portais. Do barroco é grande parte da riqueza constituída por talha, estatuária e azulejaria representativa da vida do santo. E que se saiba, custeada pelos pescadores de Setúbal. Homens de muita fé, isso ninguém duvida.
Como de crença se fala, espalhados pelas ruas da cidade ainda encontra os Passos da Procissão da Paixão, um marco iniciado em Setecentos que assinala o trajecto seguido pelos fiéis aquando da sexta-feira santa. A caminhada já dava para soar a camisa.
Paula Oliveira Silva 2004-08-16