Tratando-se do tema peixe, a Portugal, país costeiro não faltam boas alternativas. Escolhemos a cidade mais ocidental do país como destino. Quem visita Peniche no Verão encontra uma estalagem com o tamanho da cidade que se oferece sob a forma de quartos. Senhoras de chinelo, avental e carrapito na cabeça quase que se atiram para a beira da estrada com pequenos cartazes que elucidam o que ali estão a fazer: “chambres”, “rooms”, “zimmers”. É o mesmo fado todos os anos.
Seja qual for o caminho por onde se chegue, o porto corresponde ao ponto cardeal para onde confluem todas as artérias e onde as ruas acabam em mar azul. Agora trate de pôr de lado a imagem que toda a gente tem desta península e imagine Peniche uma ilha, como o foi até meados do século XV. Água por todos os lados... Em dias festivos, fins-de-semana e meses de férias, os restaurantes facilmente enchem. E não são tão poucos quanto isso, a afluência é que é muita. No meio de tudo isto Peniche, cuja simples pronunciação do nome associamos a mar, continua sui generis e os modos de convívio passam pelo encontro no cais, junto à fortaleza Seiscentista, reveladora do antigo valor estratégico, ou pela ida ao enérgico mercado onde se vende um pouco de tudo o que diga respeito à gastronomia. Peixe, legumes, fruta e até carne. As ruas enviesadas e transversais à rua principal, escondem lugares de verdadeira gastronomia local, onde invariavelmente se adivinha uma ementa onde o peixe é o prato principal. Tão fresco que até parece que chega vivo à mesa. Anunciam-se também mariscos, bivalves e moluscos. Pescado para grelhar, assim simples como o povo gosta. A bela da sardinha, robalos, douradas, lulas, choco, com ou sem tinta ou então o emblema gastronómico da cidade, a caldeirada, que é quando vários tipos de peixe encontram na batata, nas “conchas” e nas lulas e parentes próximos, os companheiros perfeitos. Não falta para lhe dar gosto, o tomate e o pimento, muito molho e cebola bem grossa às rodelas, um copito de uísque e um pouco de piri-piri para puxar pela bebida.
Assim, à moda do pescador tem de vir para a mesa numa simples panela com um guardanapo de papel a servir de alívio no impacto com as mãos. Esta é a forma mais genuína de servir. Tradicionalmente o pão serve também como “limpa prato”. Dependendo do restaurante e de quem o frequenta, é certo. Quem não gostar do estilo, deverá trocar as toalhas e guardanapos de papel pelas suas congéneres de pano. Traduzindo, deverá escolher o restaurante à sua medida para que as expectativas não saiam defraudadas. Mas estes têm os preços bem mais inflacionados. Já agora aceite outro conselho de amigo, de Peniche, pois então. Como esta gente daqui é tudo menos invejosa, quando vir na ementa que a caldeirada é para duas pessoas, desconfie como nunca o fez na vida, porque a que nos serviram saciava três ou mais. As doses são francamente abundantes, culpa das cozinheiras da terra, sábias no seu ofício e que nos estragam com tanta fartura.
Paula Oliveira Silva 2003-09-16