Sobre um elevado planalto do nordeste beirão está situada a vila de Trancoso. Dentro dela, o castelo medieval, preservado perfeitamente numa povoação que vive voltada para uma história de grandes batalhas e acontecimentos. A paisagem de ruelas estreitas e casinhas apertadas é sobranceira à imponência do castelo, prestando-lhe ainda hoje uma espécie de vassalagem.
O castelo impõe-se a todo o resto. Construído com cinco torreões principais e circundando o terreiro no qual se ergue, a torre de menagem ampara duas portas rasgadas na muralha que dão acesso ao terreiro. Ainda na própria torre de menagem, uma janela aberta em arco de ferradura, provavelmente realizada durante o domínio muçulmano da zona, permite imaginar alguma donzela que se debruçasse sobre os céus da povoação, para ver sair pelo portão principal do castelo o seu príncipe.
Historicamente o castelo de Trancoso tem muito que se lhe diga. Teríamos que mergulhar profundamente na História, até ao tempo dos romanos, onde a povoação ganha mais importância. É na Idade Média, porém, que a história de Trancoso ganha contornos de grande importância: em 1140, ao mesmo tempo que uma ofensiva muçulmana atacava Leiria, outra frente invasora avançou até Trancoso, saqueou a povoação, e danificou o castelo.
D. Afonso Henriques toma aqui um papel de grande importância, afastando de Trancoso os árabes, reconstituindo a fé cristã e restaurando a defesa do castelo. Passados vinte anos, o rei concede foral a Trancoso, homenageando a brava gente que regressara após os ataques. No reinado de D. Afonso II, Trancoso toma uma grande importância no reino, pelo aumento demográfico registado e a importância defensiva do seu castelo.
Com D. Dinis, Trancoso insere-se de novo na vida geral do país. De facto, Trancoso foi palco para o casamento do rei com Isabel de Aragão, a Rainha Santa, a 24 de Junho de 1282. Passado algum tempo, o monarca promoveu o amuralhamento da povoação, reforço de defesa militar. Estava na mira do monarca conseguir conquistar para Portugal os terrenos de Riba Côa, então castelhanos, e mesmo sobranceiros ao castelo.
Mais tarde, o castelo de Trancoso foi novamente invadido por tropas castelhanas, valendo-lhe a sua situação estratégica para defesa do próprio país. As forças inimigas entraram em Portugal pela fronteira de Almeida e depressa atingiram o castelo de Trancoso. Isto, na invasão que havia de terminar com a famosa Batalha de Aljubarrota.
Aldeia Histórica
Contudo, a vila não vive actualmente apenas do seu castelo. É certo que é impossível não nos sentirmos atraídos por aquela construção medieval, ainda para mais sabendo de todas as guerras e momentos importantes da nossa história que lá se passaram.
Foi a necessidade de preservar toda esta história que conduziu à classificação de Trancoso (juntamente com Belmonte) como Aldeia Histórica. O programa de recuperação das Aldeias Históricas conta com 12 aldeias, sete das quais situadas no distrito da Guarda.
Álvaro Curia 2003-08-05