Sabia que é possível ir da Lousã à Serra da Estrela praticamente sem utilizar o alcatrão? Basta possuir um veículo todo-o-terreno, alguma aptidão para o conduzir e um mínimo de sentido de orientação. O itinerário proposto une o Castelo da Lousã à Lagoa Comprida, representando uma viagem de cerca de 110 km. Salvo condições climatéricas adversas ou qualquer ocorrência fora do normal, pode ser feita num dia. Tal como em qualquer outro percurso TT devem ser observadas algumas regras, designadamente não rodar sozinho mas acompanhado por pelo menos outro veículo, ter atenção à possibilidade de neve ou nevoeiro cerrado (que podem desaconselhar a travessia de certas zonas) e reconhecer a pé qualquer eventual obstáculo (já que o perfil da pista pode ser modificado pela invernia). Chegado à vila da Lousã, aproveite para atestar o depósito e aumentar a pressão dos pneus, já que a subida inicial tem bastante pedra e a possibilidade de furar é real (pode, sem receio, aumentar a pressão para as 40 libras). Inicie o percurso junto ao castelo da Lousã. Situa-se fora da vila, numa derivação da estrada para Castanheira de Pera (EN236). Domina o vale aberto por uma ribeira afluente do Ceira e a sua fundação é anterior à Nacionalidade, fazendo parte da linha defensiva apoiada no Mondego que em princípios do século XII separava territórios cristãos e mouros. A dois passos um excelente restaurante, caso inicie a viagem à hora de almoço... Retome a EN236 para a direita e prossiga até à povoação de Alfocheira. 1100 m após a placa com aquele nome corte à esquerda para terra (geralmente o cruzamento está assinalado com fitas de plástico). Vai iniciar uma longa ascensão até ao marco geodésico da Ortiga. Faça os primeiros 1600 m pelo caminho principal até chegar a uma clareira. Aí, à vista de um longo corta-fogo engrene as redutoras e inicie a subida. São 1800 m de rampa, num ou noutro caso cortada por valas que deverá atravessar muito devagar e na diagonal. Na maior parte dos jipes a segunda velocidade será suficiente. Evite grandes acelerações para as rodas não patinarem no xisto. Como recompensa por esta dura ascensão a vista do marco geodésico da Ortiga (altitude 928 m). O seu próximo objectivo é o Castelo do Trevim (altitude 1205 m), coroado por antenas. A navegação é evidente, devendo seguir em frente pela pista principal, deixando um poste de alta tensão à esquerda 1300 m depois. Andados mais 1500 m, suba em frente, deixando dois caminhos à esquerda. No Trevim desça pelo alcatrão, mas passados 1300 m descreva um gancho à esquerda para terra, seguindo a placa «Santo António da Neve». 800 m depois atinge uma encruzilhada onde deve entrar em frente para o alcatrão, deixando uma estrada à esquerda e outra à direita.
O asfalto vai direito ao próximo objectivo, o vértice geodésico da Neve (altitude 1193 m). Pode, no entanto, divertir-se atalhando pelos corta-fogos que sobem na mesma direcção. Antes das antenas tem, à direita, a capela de Santo António da Neve e os neveiros, poços onde se formava neve, depois levada para os cafés e hotéis de Coimbra (numa época anterior à dos frigoríficos, é claro). Chegado às antenas, atravesse a pista de aviação (desactivada excepto na época de combate aos fogos) e prossiga sobre a direita por estradão a descer. Começará a ver à sua esquerda uma curiosa formação geológica conhecida como Penedo de Góis. 2900 m depois, no alcatrão, entronque à direita e continue a descer até chegar à EN2. Neste ponto pode optar em função dos seus conhecimentos de navegação já que vai ter que passar o vale do Ceira. Se possui as cartas 1/25000 da zona (243 e 253) e tem experiência da sua utilização atravesse o alcatrão, suba o corta-fogo quase em frente e a partir da cumeada siga para nordeste acompanhando uma linha de alta tensão, até apanhar uma pista que lhe permita descer até à ponte do Colmeal (a partir desta aldeia pode apanhar pistas que sobem para a cumeada onde corre o estradão habitualmente utilizado pelo Rali de Portugal - a sua referência é o marco geodésico da Gatucha, altitude 963 m). Se pretende um caminho mais cómodo, entre à esquerda na EN2, passe as localidades de Póvoa, Esporão e Ladeiras, devendo, 1300 m depois desta última, descer à direita para terra. Chegado a uma clareira, continue a descida pela pista principal. 1400 m depois apanhe alcatrão estreito e continue encosta abaixo até entroncar à direita na estrada principal. Pode retemperar as forças nesta simpática vila com uma curiosa ponte medieval sobre o Ceira. Tome a direcção do Quartel dos Bombeiros e à vista deste suba à direita na direcção de Cadafaz. Tenha atenção à contagem dos metros a partir daqui, já que a nota seguinte é crucial para não se perder: 2200 m depois, quando existir um murete de pedra à direita, deve sair para terra, descrevendo um gancho à esquerda e iniciando uma longa subida. Durante vários quilómetros vai andar sempre pela cumeada, passando junto de sucessivos marcos geodésicos: Rabadão (698 m) e Capinhas (703 m). Tenha atenção que cerca de 270 m após este último numa bifurcação deve seguir pela esquerda até chegar a uma encruzilhada onde deve subir ligeiramente à esquerda entre árvores. A partir daqui limite-se a seguir a pista principal, passando pela torre de vigia dos fogos, pelos vértices geodésicos de Vieiro (altitude 859 m) e Gatucha (963 m). Seria aqui que, caso tivesse vindo pelo Colmeal, apanharia esta pista, habitualmente utilizada pelo Rali de Portugal (corresponde ao troço de Góis mas feito em sentido contrário). Cerca de 1 km após a Gatucha suba à direita junto às antenas e 3 km depois estará no famoso cruzamento da Selada das Eiras. É um local paradisíaco, com uma casa em xisto recentemente recuperada e árvores frondosas. Era também aqui que se juntavam milhares de espectadores nos tempos heróicos do Rali, durante a «Noite de Arganil».
Cumprida esta primeira parte da viagem, saiba que tem em baixo à esquerda a vila de Arganil. Cruze o asfalto em frente, suba e uma vez descrito um apertado gancho à esquerda, entronque no asfalto também para a esquerda, na direcção do Piódão. Hoje quase todo o estradão para esta famosa aldeia de xisto está asfaltado, pelo que basta seguir as indicações. Serão 25 km feitos em pleno coração da Serra do Açor. Cumprida a visita a esta aldeia com as suas casinhas tradicionais dispostas em anfiteatro, pode descontrair um pouco utilizando a estreita estrada de alcatrão que do Piódão acompanha a ribeira homónima até Vide, passando por Chãs de Égua (outra aldeia interessante). Se lhe apetece continuar por fora de estrada, em Chãs de Éguas, 200 m após as setas «Vide/Covilhã» e junto ao depósito de água, saia do alcatrão descrevendo um gancho à direita e iniciando uma penitente subida que o levará até ao marco geodésico de São Pedro do Açor (altitude 1400 m), donde deverá descer para Vide. Chegado a Vide, passe a ponte sobre a ribeira homónima e entronque à esquerda na EN230. Em frente a uma paragem de autocarros e de um poste, exactamente ao km 147 da referida estrada, suba à direita para terra. Aqui, já com a serra da Estrela a desenhar-se em frente e um vale profundo a acompanhar-nos à direita, há que percorrer cerca de 10 km por um estradão largo, quase sempre a subir até ao cruzamento com a EN231. Aqui chegado pode ser necessário optar, já que a continuação da pista, sensivelmente em frente, pode estar inviabilizada, seja pela neve, seja pelos incêndios florestais e subsequente erosão. Se assim for, corte à esquerda e desça até São Romão/Seia. Em São Romão pode tentar voltar a subir por terra a partir das capelas da Senhora do Desterro, utilizando a pista que acompanha o canal do Alva e sobe até às proximidades da aldeia de Sabugueiro. Caso seja possível continuar em frente, suba pelo meio do pinhal, tendo em atenção que cerca de 2 km depois, e passada uma zona muito revolvida pelas chuvadas, terá que descrever um gancho à direita e subir sempre pela principal (nem sempre em muito bom estado) durante cerca de 8 km. Irá entroncar na EN339, com a Lagoa Comprida cerca de 2 km à sua esquerda e a Torre a cerca de 7 km à direita.
Rui Cardoso 2001-11-07