Tapada de Mafra

Veados, gamos, javalis, saca-rabos, raposas, lobos e pássaros. A Tapada de Mafra parece um jardim zoológico, mas com os bichos em liberdade. E ali perto é possível adoptar lobos para o resto da vida. Ideal para levar as crianças, que acabam fascinadas na Aldeia Típica de João Franco.

Transpostos os portões do Codeçal, dá o visitante de caras com uma autêntica sala de visitas. Uma enorme clareira, rodeada de verde, serve de local de encontro a quem espera pelo comboio que o levará neste passeio pelo velho parque de caça. São 10.15 da manhã e já começou a visita. É bem cedo que os bichos se dão a ver. A bordo do comboio de três carruagens que segue por uma estrada de terra batida, miúdos e graúdos põem os sentidos à prova. Um pequeno descuido e lá ficam sem ver o bicho que apareceu com a mesma rapidez com que fugiu. Apesar de o património natural por si só justificar a visita, quem aqui vem sabe que terá um dia muito especial. Não é em todos os locais que bichos passeiam tranquilamente sem se preocuparem demasiado com a presença humana. Enquanto avança pela Tapada adentro irá encontrar abrigos de caça. Umas construções semicirculares com aberturas ao meio que serviam para colocar as armas e abrigar os caçadores, enquanto os camponeses, nas proximidades, afugentavam a caça para que saísse disparada em direcção aos locais onde se encontravam os abrigos. Pouco tempo depois, a primeira paragem: uma visita ao Museu de Carros de Tracção Animal, todos eles portugueses e todos utilizados pela realeza, quando ainda havia. Aqui ficará a conhecer algumas histórias interessantes. Sabia que a “jardineira” só podia ser utilizada por senhoras? Ou que o coche de longas distâncias possuía já mecanismos que permitiam aos ocupantes alguma privacidade? E que os “breques”, coches robustos, eram autênticos todo-o-terreno utilizados nas caçadas? Mas era assim. Retomando o caminho, e antes que surja a segunda paragem, a guia vai dando algumas noções importantes com as quais se fica a compreender melhor a fauna e a flora. Por mais que se tenha avançado neste percurso, a cor dominante continua a ser o verde. Houve mão divina aqui e nada foi deixado ao acaso. Quis o pintor que no seu quadro naturalista apenas mudasse a tonalidade. À sombra de diversos tipos de árvores e por entre matos de urze, trovisco, murta ou aroeiro, pode observar em plena liberdade gamos, javalis, veados, mas também uma grande variedade de aves, estas mais tímidas e por isso mais difíceis de serem vistas. A flora constitui um factor importante para a alimentação dos animais, assim como a ribeira que durante muito tempo o acompanhará no percurso. Explica a guia que esta é uma fonte de equilíbrio muito importante para todo o ecossistema. Os animais selvagens servem-se dela para matar a sede e para se refrescar. Estreito e modesto, ninguém diria que este tímido curso de água atravessasse toda a Tapada e desaguasse na Ericeira, a uns bons quilómetros dali.

Antes de regressar, uma passagem pelos cativeiros, feitos para que, caso os visitantes não vejam bichos em liberdade, ainda assim não dêem por infrutífera a visita. Em cercado encontrará algumas espécies de animais que também passeiam em liberdade pela Tapada: lobos, veados, gamos, javalis, ginetes, saca-rabos, e uma raposa. Ao contrário da indiferença dos seus companheiros livres, os de cativeiro não parecem muito satisfeitos com a presença de estranhos. A criançada vibra com as histórias que lhe vão sendo contadas ao longo do passeio. A raposa, apanhada numa armadilha, ficou de tal forma perturbada que já não conseguiria caçar e morreria, por isso vive cativa. Os gamos, mesmo correndo o risco de apanhar um choque eléctrico, alargaram com as suas hastes os fios da vedação, para poderem entrar no pasto que tinha a erva mais fresca. Coisas de bichos. Agora, uma visita a outro museu, o da Tojeira. Aqui dominam os embalsamados. Para os mais impressionáveis convém referir que nenhum destes animais foi morto com esse objectivo. O seu aproveitamento aconteceu após a morte, por doença ou de forma natural. Este é o local apropriado para ficar a saber mais algumas curiosidades... A doninha portuguesa, de cor castanha, não ultrapassa os 30 cm e não exala odor, o que lhe permite passar pelas redes dos cativeiros sem ser notada. Os cervídeos, caso dos gamos e dos veados, apesar de pertencerem à mesma família, têm mais diferenças do que à primeira vista se poderia supor: uma delas está nas hastes. Já agora, sabe qual é a diferença entre hastes e chifres? (fique sabendo que as primeiras caem, os segundos são fixos). E porque o cenário assim não ficaria completo, as armas de caça também não foram esquecidas. Depois desta visita, espera-o a viagem de regresso ao Portão do Codeçal. Mas antes de seguir para outro destino, uma pausa para o almoço. A escassos quilómetros, no Gradil, há um restaurante que prima pela simplicidade e simpatia: o “Faisão”. Os vinhos vão de Norte a Sul de Portugal, mas a jeropiga é caseira. Grande variedade de pratos e se é amante de sobremesas peça a da casa. O nome é sugestivo – bigodes. E mais não se diz.

Uma aldeia faz de conta

À tarde, a aldeia típica de João Franco. De Mafra ao Sobreiro a distância é curta. Se tem filhos, este é o espaço ideal para os levar. Na sua pequena oficina, não proporcional à quantidade de figuras que cria, pode encontrar José Franco. Com as mãos ocupadas a trabalhar o barro, não pára de produzir sonhos. E como homenagear as crianças é o seu objectivo, ainda não deu a tarefa por comprida. É que este é um público muito exigente. Logo à entrada adverte-se para esta classe de visitantes, numa pequena lápide que mal se vê. “Atenção, agradece-se aos acompanhantes das crianças que as vigiem durante a visita. Obrigado.”

Nesta aldeia faz de conta que se vive como viviam os nossos antepassados. E os mais novos podem sentir como eram esses tempos. Escolher entre o açougue (talho), a mercearia da Ti Lena ou a oficina do carpinteiro e ferreiro, é sempre difícil. Por isso acabam por brincar em todos. Antes de partir, passe pelo moinho para ver como o cereal se transforma em farinha para fazer o pão. Por falar nisso, e porque a tarde já vai longa e a fome aperta, recomenda-se o famoso pão com chouriço, à venda na Padaria da aldeia. E, já agora, prove a não menos famosa jeropiga.

Paula Oliveira Silva 2001-05-23

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