As casas são cinzentas de granito maciço, com um ou dois andares, os telhados vermelhos alinhados em fila e mesmo quem não gosta de arquitectura ou de andar a pé, rende-se ao charme desta vila secular. Chegamos a Sortelha e parece que entramos na máquina do tempo e mergulhamos no Portugal rural que julgávamos desaparecido, o tal país profundo, que ainda preserva a tradição. O nome Sortelha vem do latim Sortilia, que significava anel de sortilégio. O nome combina bem com a vila, pois a sua muralha circular parece proteger a aldeia antiga dentro de um anel, como se de uma aliança se tratasse.
À primeira vista
Do alto da muralha do castelo a vista domina os campos ao redor, mas também toda a vila. Quase instantaneamente, torna-se perceptível a arquitectura urbana, na qual se encontram diferenças de estilo entre a velha Sortelha, dentro das muralhas e a nova aldeia que vai surgindo mais abaixo, dispersa pelos arrabaldes da colina. No interior da fortaleza, hoje parcialmente em ruínas, situavam-se a praça de armas e as cisternas.
No terreiro exterior foi construído o pelourinho, que se ergue imponentemente junto ao antigo edifício da Câmara. Memórias do tempo em que havia reis e castelos. Resta, no lugar da Câmara uma velha escola. Não tem mais que duas salas, mas há quarenta anos estava cheia de crianças de Sortelha e de outras aldeias ali perto. Hoje, contam-se pelos dedos os meninos que cá vêm aprender a ler.
Visto mais de perto
Passear pela vila é um sossego. Em menos de uma hora dá-se a volta completa às ruas de calçada medieval e ao castelo. Mas quem vai com olhos de ver e conversa com os velhos que ficam à porta de casa, pergunta-lhes como era a terra antigamente e descobre que não faltam histórias de encantar, de outro mundo quase esquecido.
Começando pelo largo do Curro, veja a velha fonte romana e o beijo eterno, duas pedras de forma peculiar unidas por um só ponto. Pela rua de Sortelha acima atravessa o casario até o ponto mais elevado da vila. Quando voltar, visite a antiga cadeia e por fim, uma paragem estratégica no bar do largo do Curro.
Ainda que se possa entrar com o carro dentro das muralhas, se puder evite. Vá a pé.
N'Dalo Rocha 2002-02-11