Provavelmente não é nada que nunca te tenha ocorrido, passar uma manhã ou uma tarde na Assembleia da República e assistir a um debate ao vivo. Se te sentires com vontade, não precisas de grandes preparativos. Utiliza os contactos do site www.parlamento.pt para saberes os dias e o horário. Mas ficas já avisado: não vais poder levar para o teu álbum as fotografias dos nossos deputados pela simples razão que estás proibido de entrar com esse aparelho. Telemóveis estão igualmente interditos mas podes deixá-lo à entrada onde em troca te dão um cartão com os teus direitos que serão mais deveres que outra coisa e onde te revistam segundo o mesmo sistema dos aeroportos. Tens direito a não teres lugares marcados, a não te poderes manifestar, a não poderes entrar armado (!), a descobrires-te e manteres-te a descoberto. Uma alínea intrigante, esta última. Não trates de te pôr como vieste ao mundo, porque aí é que vais mesmo passar um mau bocado. Apesar de mal explicado, o que se pede é que caso uses chapéu, o tires. Um requisito à antiga, o que é que queres, mas que está carregado de simbolismo. É que de chapéu só a autoridade policial. Se não cumprires todos estes pressupostos tens mais um direito que será o quinto e o último. Ou não entras na sala ou se já lá estiveres dentro, habilitas-te a ser expulso.
Conhecidas as regras, diriges-te ao lugar que te calhou em sorte e preparas-te para apreciares o momento. Na televisão o parlamento parece maior do que na realidade é. A Sala das Sessões é muito bonita e comemora este ano o centenário da sua inauguração. Perde uns bons minutos a examinar a riqueza da decoração e fixa bem a imagem evocativa das Cortes Constituintes de 1821. Passados quase 200 anos vais achar alguma semelhança com esse tempo.
Sim, é mesmo verdade aquilo que vimos nos telejornais. Os parlamentares falam muito uns com os outros e não são nada discretos. Levantam-se dos lugares e até ficam de costas para a mesa da Presidência onde bem se vê a palavra latina "lex”. Lêem o jornal à descarada, fazem comentários com o colega do lado e atendem telefonemas.
Mudam de lugares se os vizinhos saíram, abrem a boca cheios de sono, olham muito para o relógio e no final de tudo isto, como se estivessem atentos, mal termina o pregador, os da mesma cor política desmancham-se em aplausos para um discurso que nem sequer ouviram. Valha a solidariedade política e a confiança no orador. “Muito bem”, ouve-se com convicção. No placard digital vê-se o tempo que cada discursador dispõe integrado, obviamente, no seu partido.
Quem estiver atento, mesmo nos discursos menos inflamados, descobre verdadeiras pérolas da ironia. “... são 60% não vou traduzir isto por cafés...”. Mas a que tão cedo não sai da memória dos portugueses saiu da boca de Carlos Carvalhas que dirigindo-se à Assembleia e referindo-se a Tony Blair o apelidou de “aquela avestruz”. O Presidente da Assembleia, atento, chamou-lhe a atenção ao que o parlamentar pediu desculpa mas não era sua intenção ofender (pausa) o animal.
Em vésperas de fim-de-semana prolongado ainda te arriscas a ouvires um político relaxado para o outro mais nervoso: “Ó senhor deputado, hoje é sexta-feira, não tenha mau feitio”. Vá lá dizer isso ao meu patrão... Isto foi em véspera de feriado, nos outros dias não será assim...
Paula Oliveira Silva 2003-12-02