As praias há muito que ficaram para trás. As estradas, com curvas cada vez mais apertadas, obrigam a caixa de velocidades do carro a trabalhos forçados. Os galhos das árvores tocam-se de um lado ao outro da estrada, como se estivesse a passar por um enorme túnel verde. O destino é a Vila de Monchique, no coração da serra, a 485 metros de altitude, agora já a pouquíssimos quilómetros de distância. Mas nem é preciso lá chegar para se perceber que este é um Algarve diferente do habitual. Mais bonito talvez, menos turístico com certeza. Aqui o calor do sol e o castanho das areias das praias, dão lugar ao verde e à frescura da serra. Talvez por isso Monchique seja considerada por muitos, como Sintra do Algarve.
No fim das curvas
Quando finalmente se chega, a comprovar a ideia criada durante a viagem, as pequenas ruas de pedra, desordenadas, e decoradas com casas brancas de portas e janelas azuis dão colorido especial a esta simpática vila.
De carro é impossível descobrir Monchique. Por isso mesmo o melhor é estacionar e seguir o caminho a pé. Para começar, uma visita à Igreja Matriz, construída entre finais do século XV e início do século XVI. Reconstruída após o terramoto de 1755, a Igreja, para além de outros atributos, exibe um portal manuelino fora do vulgar. Quem o diz é António, um habitante da vila – esqueci-me de perguntar como se chamam os habitantes de Monchique. Um pouco a norte, já no Alentejo chamam-lhes monchiqueiros, mas isso deve ser um daqueles gestos pouco amistosos entre vizinhos que nascem em lados diferentes da fronteira. Depois de uma passagem pelo interior da Igreja, o passeio continua, pelas ruas de Monchique com várias lojas recheadas de produtos locais. Invulgar nos dias de hoje. Aproveite-se para comprar um cesto de verga. Parecendo que não pode vir a ser útil.
O ponto mais alto do Algarve
Visitar a Serra de Monchique significa passar obrigatoriamente por Fóia. A quase 1000 metros de altitude, é o ponto mais alto da Serra de Monchique e também de todo o Algarve. Para lá chegar é, portanto, necessário subir. Há então que regressar ao carro. A caminho vale a pena parar num café e experimentar outro dos produtos típicos de Monchique. Aguardente de medronho. Mas fazê-lo antes de entrar no carro é capaz de não ser boa ideia. Aquilo é forte que se farta. E bom, para quem goste do género.
Em Fóia não há muito para fazer a não ser apreciar a vista. Diz quem sabe que em dias poucos nebulosidade se consegue avistar a Arrábida, em Sesimbra. Bem mais perto, e mesmo com alguma nebulosidade, uma extensão enorme de paisagem para apreciar e perder algumas horas. Os amantes de pássaros passam horas aqui. Em épocas certas do ano, que eles lá sabem, passam por aqui bandos migratórios de penas raras para estas paragens.
Antes de seguir viagem, aproveite-se para conhecer um pouco melhor a encosta da serra com bonitos riachos e pequenos vales estreitos.
Nuno Maia 2001-11-07