Os voluntários
Não são super-heróis, apenas pessoas normais, que a troco de nada, abdicam de parte do seu tempo para fazerem aquilo que gostam: Ajudar quem precisa. Sem fatos à prova de bala ou capas voadoras, apenas com o espírito fraterno e a boa vontade para se reunirem quinzenalmente na Comunidade Vida e Paz.
Os mais assíduos marcam presença logo após o jantar, ainda o ponteiro do relógio não bateu as nove badaladas. Lentamente, os carros vão estacionando à porta da vivenda que alberga a sede desta congregação religiosa. As pessoas vão entrando, confraternizam com os colegas à medida que trocam impressões com José Carlos, o responsável pelo armazém no turno da noite. Também ele foi um sem abrigo que durante anos vagueou pelas ruas de Lisboa até se reabilitar já no seio da Vida e Paz. É que, para além do apoio aos sem abrigo, a comunidade possui ainda mais três quintas na região Oeste onde fazem a reinserção social de todos os que abandonam a rua. Infelizmente, as taxas de sucesso são baixas. Aliás, José Carlos é a excepção positiva à regra.
Carregar o carro
Ao longo da entrada desta casa encontramos estantes de aço onde se amontoam os pacotes de leite, bens alimentares, sacos de roupa e cobertores. E curiosamente todos estes bens são ofertados por particulares, empresas e hipermercados, como por exemplo as carrinhas pertencem a rent-a-cars. A primeira tarefa da noite por parte dos voluntários passa por atestarem os carros de distribuição. São sacos de roupa, bidões de leite quente, cestas de laranjas e sacos que contêm sandes, fatias de bolo e por vezes também iogurtes. Esta será a refeição garantida, para muitos a única que irão fazer ao longo de 24 longas horas.
Quando estão todos a postos, faz-se a contabilidade final de quem vem e o quê que se leva. O chefe de equipa confirma o itinerário e verifica na sua lista quantas pessoas espera encontrar durante a ronda. Existem duas voltas asseguradas pelos voluntários das equipas A e a B, que cobrem provavelmente bem menos de 50% da área geográfica de Lisboa. Porém, incidem nos pontos estratégicos onde se concentram as maiores bolsas de sem abrigo da capital.
A volta B
Começamos a percorrer a Av. Estados Unidos da América em direcção à rotunda de Entrecampos. Paramos em frente a um edifício de escritórios e prontamente três homens na casa dos trinta e muitos, talvez quarenta, aproximam-se sem hesitar. Já são velhos conhecidos do grupo e estão bem dispostos. Brincam e um até nos ensina a fazer truques com cartas. Bebem o leite quente e pedem roupa. Dois deles provam casacos e o terceiro, pergunta se há algum par de calças. E para tirar as dúvidas se serve, introduz o seu antebraço desde o cotovelo até ao punho na cintura da calça. Não lhe cabe, ou melhor, fica-lhe apertada na cintura. A vontade era muita, mas o homem resignado, agradece e rejeita a oferta. "Fica para outro" responde. Trocamos mais alguns galhardetes com o grupo e partimos.
Praça de Espanha
Placa giratória para milhares de automobilistas que a cruzam diariamente, sofreu muitas obras nos últimos três anos. Foram os jardins que se tornaram mais verdes, o novo Teatro Aberto e o velho Arco, que após décadas de esquecimento foi montado. Tudo lindo, mas alguém se esqueceu de acabar com as barracas. Estão escondidas por detrás de arbustos e capins a uns escassos trinta metros da porta do Teatro da Comuna e dão tecto a cerca de uma dezena de pessoas.
N'Dalo Rocha 2003-04-14