A primeira impressão que temos quando entramos na baía, é de que chegamos a terras de África, tal a semelhança do tipo de construção, clima, águas límpidas e até da vegetação. Depois, depois, ande-se a pé pelas ruas onde o tempo parou, onde as casas ainda são baixas, onde as pessoas dizem boa tarde, quer conheçam ou não, onde há tempo para ver o sol a cair no mar, sem que um qualquer mamarracho de betão o possa impedir. Passeia-se pelas praias de areia fina, limpa e dourada, ou mergulha-se nas águas cristalinas. Como se quiser, desde que se goze a calma do Santo Porto como deve ser. Acresce dizer que são comprovadas clinicamente as propriedades terapêuticas das areias de Porto Santo. Além de que o sossego também deve ser medicinal. Pode-se lá chegar de avião, pela carreira normal do continente com transbordo no aeroporto do Funchal, em Santa Cruz localizado, ou directamente de Lisboa ou Porto. Nós preferimos o “lobo marinho”, nome carinhoso por que trata o barco que faz a ligação entre as duas ilhas. Sai todos os dias às oito da manhã, com pontualidade Britânica, do porto do Funchal, excepto terça-feira para descanso merecido do pessoal. O regresso faz-se ao fim do dia pelas dezoito horas, também sem atraso na partida. São duas horas num barco confortável, com restaurante e bar em serviço permanente durante o percurso. Tem lugar para automóvel, o que às vezes pode ser um problema. Quem foge ao rebuliço, não deve escolher Agosto, épocas festivas e fins de semanas prolongados, pois grande parte das pessoas que vai nessa altura leva ou aluga carro, e o movimento é assustador. Pelo menos comparando com o resto do ano. Alugando um Todo-o-terreno pode-se sempre dar a volta do turista sem se sentir ofendido com a designação. Feito o percurso, é difícil escolher o melhor, mas tentemos. Para começar, o pico do castelo, com vista soberba sobre toda a ilha. Além disso, o cabeço das flores e um pouco mais a sul o miradouro, também das flores. A não perder, a ponta da Canaveira e a fonte da areia. Sugerimos ainda a visita a um outro oásis feito pelo Camanel e pela Rosa. Dois carolas, marido e mulher que transformaram cinco hectares de calhaus e terra num pequeno jardim suspenso no meio da aridez do terreno circundante. Incontáveis variedades de árvores, plantas e flores onde habitam aves exóticas, pavões, araras, toscanos, mandarins, rolas e agapornis. Saboreie um aperitivo ou um café em esplanada à sombra da bananeira, com o barulho da passarada em liberdade, e das cascatas artificiais onde corre solta a água. É uma experiência agradável.
Pensam os donos da Quinta das Palmeiras, assim se chama este local, construir para breve dois apartamentos em madeira com todas as comodidades, para ser alugado em regime de turismo rural. Vale a pena esperar, entrementes saboreie-se a sombra e o grito dos bonitos faisões, enquanto se refresca a garganta. E depois continue-se o passeio. E faça-se muita praia que numa ilha assim não molhar os pés de hora a hora deve ser pecado. E, como o que há para fazer nem é muito, pode-se sempre aprender um pouco da história do sítio. O mínimo pelo menos. Há várias teorias sobre a origem do nome da ilha do Porto Santo. Para uns, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira terão aportado durante uma tempestade e foi a baía protectora a salvá-los de naufrágio certo. Para outros, os homens da armada Lusitana descobriram com toda a calma do mundo este paraíso à beira mar plantado, no dia 1 de Novembro, de todos os Santos, de 1418. Rezam também as crónicas que o Colombo terá vivido em Porto Santo – casou com Filipa Perestrello, filha do donatário da ilha, por amor, segundo alguns; para surripiar as cartas da América ao sogro, segundo outros. Polémicas à parte, de todos ou de um só Santo, chegou aos nossos dias um lugar digno de visita.
Quando não se está parado
Para os radicais do desporto a coisa está pior, pois terá que combinar com antecedência com o aeroclube Asadelta no Funchal, o tipo de modalidade a praticar e a data da sua preferência. Aos amantes da pesca submarina o mar recebe de águas abertas com transparência e calmaria, principalmente na zona sul da ilha, contudo há que trazer o material necessário à prática. Para alugar, só carros, bicicletas, motos e trotinetas. Há torneios de voleibol em Junho e para os pescadores aficcionados, existe um concurso em Abril.
O Clube Naval organiza em Abril e Setembro um rally de carros e a autarquia promove um desfile de Donas Elviras em Maio.
Mas a festança não se fica por aqui, o 24 de Julho comemora o São João, e segundo consta com mais galhardia que os tripeiros. O enigmático Cristóvão Colombo, o tal que descobriu as Índias na América, tem direito a casa museu, fracota diga-se em abono da verdade, e festarola rija no mês de Setembro.
A comezaina não ficou esquecida e os Porto Santenses têm dedo para a cozinha. Acreditamos mesmo que ao pé deles o Vatel era aprendiz de cozinheiro. Experimente obrigatoriamente o filete de espada flambeado, à nossa frente, ou a espetada da zona do filete com milho frito. É de comer e chorar por mais. O restaurante fica no sítio do campo de cima, chama-se Gazela, não tem grande vista mas come-se muito bem. Está fora do centro da cidade, mas que não se desculpem os comodistas, pois o pessoal deste templo gastronómico vai buscar o cliente em carro próprio e em lugar a combinar. Mas as delícias não se ficam por aqui. Elegemos este no nosso coração, mas há outros igualmente bons – A Baiana, no centro ao pé da câmara, o Estrela do Norte na Camacha, o pôr do sol, na Ponta da Calheta e a Adega das levadas. Escolha!
As bolsas mais económicas têm refeições ligeiras a preços acessíveis no Gel Burguer, também ao pé da câmara. É o ideal para quem não quer perder tempo ao almoço com grandes comezainas.
Fizemos e recomendamos o passeio pedestre entre o lugar para merendas da terra chã e o pico da Cabrita, a noroeste da ilha, e para os mais resistentes, desde a estrada da Camacha a norte, até o Pico do Castelo, onde a vista é de pasmar.
Quem quiser alugue um TT, ou uma moto de quatro ou duas rodas, e parta à descoberta da ilha selvagem indo por onde os caminhos o levarem.
Há muito por onde palmilhar, e para retemperar forças recomendamos dois hotéis de categorias diferentes, mas igualmente bons, o Hotel Residencial Central com preços baixos e de serviço razoável e asseado e o Hotel Porto Santo, com preços mais altos e serviço cinco estrelas. Os notívagos encontram o seu pouso no Bar Alfa Mar, ou no Pub Zarco. Musica razoável e animação à maneira.
Pelo que vimos, provámos, experimentámos e conhecemos, Porto Santo é para voltar, revoltar, rever, reexperimentar e reconhecer. – Santo Porto é romântico à brava!
João Perdigão 2001-06-27