Salão de Chá Luso Japonês Castella do Paulo

Um verdadeiro (e delicioso) achado.

Ela é japonesa e aprecia a doçaria lusa, ele é português e gosta da pastelaria nipónica. São casados – faz duas décadas - e, para além de um filho em comum, partilham também o mesmo projecto de vida, o Salão de Chá da Castella do Paulo, em Lisboa, uma embaixada da doçaria luso-nipónica. O ex libris desta casa é um pão-de-ló japonês cuja receita foi levada no século XVI pelos portugueses. Um achado.

Encontro de culturas

Tomoko é japonesa e trocou a formação em Agronomia pela... gastronomia. Aos 23 anos, uma viagem pela Europa teve o propósito de aguçar-lhe ainda mais o apetite pela doçaria do Velho Continente, e de Portugal em particular.

A investigação de tradições antigas levou-a a editar livros sobre o assunto, a escrever artigos sobre este tema na imprensa japonesa e a apresentar programas de televisão no seu país natal.

Paulo, português dos sete costados, é o marido e pasteleiro de profissão. Das suas mãos saem os doces que vendem no salão de chá e para fora. É 100% fabrico exclusivo da casa, garantem.

O especial destaque vai para o pão-de-ló castella - simples, de chá verde ou de chocolate - com raízes portuguesas mas adaptado ao gosto japonês. Ovos, farinha, açúcar e mel - no Japão é substituído por melaço de arroz – são os ingredientes.

Porém, o segredo está no repouso após a cozedura. O pão-de-ló fica de um dia para o outro a arrefecer numa caixa de madeira, material que faz com que a humidade regresse ao bolo, tornando-o mais macio e nada seco. Segredos que Paulo aprendeu nos três meses que trabalhou numa pastelaria em Nagasaki com tradição quadringentenária no fabrico de castella.

Nesta cidade portuária japonesa, local de mistura de culturas, ainda não caíram em desuso algumas palavras que se pronunciam de igual forma em português e japonês, como copo.

Em ponto... castella

Várias foram as cidades e as experiências passadas no Japão, nos cerca de dois anos que o casal aí permaneceu, por alturas das Comemorações dos 450 anos das relações de Portugal com esse país asiático.

O regresso da segunda viagem ao Japão, em 1996, coincidiu com a abertura da primeira fábrica e loja, na margem sul do Tejo. O gosto pelo genuíno levou Tomoko e Paulo a marcar a diferença, recusando utilizar corantes e conservantes nos seus doces.

Sobre o nome, castella, duas teorias se impõem, embora não haja nada escrito. Uma tem que ver com a textura das claras bem batidas até ficarem firmes, as conhecidas claras em castelo. A outra com o facto de que, quando os portugueses chegaram ao Japão reinava Filipe II de Espanha (Castella), I em Portugal.

Um doce de pão

Nesta casa da Rua da Alfândega, figuram nas paredes até meio os azulejos São Simão Arte de Azeitão, ainda hoje feitos à mão com a mesma técnica do século XVII. Esta é uma outra forma de conservar um outro património português - a azulejaria - que por vezes se vai tornando difuso na memória lusa.

Paula Oliveira Silva 2007-05-02

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