Se pensa que Rio Maior não tem nada que motive uma visita está muito enganado. Esta pacata cidade esconde um verdadeiro tesouro natural. Sendo Verão, do alto da serra dos Candeeiros descem os agricultores para se dedicarem a um outro tipo de actividade não menos dura: as salinas. Algumas dezenas de famílias encontram nos meses de Junho a Setembro um complemento aos rendimentos muitas vezes escassos da agricultura.
Sal em terra?
Rio Maior não tem mar. Ainda assim, por aqui consegue-se extrair sal. Confuso? Segue-se a explicação. Há milhões de anos atrás, na estranha batalha entre terra e mar, saiu triunfante a primeira e o mar, humilhado, viu-se obrigado a recuar 30 quilómetros. Porém, não quis que caísse no esquecimento a sua passagem pelo local e, a lembrar os tempos que por cá andou, deixou um lago que acabou por secar. Ainda hoje a jazida continua a produzir o sal que, segundo estudiosos, é sete vezes mais mineralizado que o do mar.
Em épocas mais distantes, o sal teve um papel de destaque nas vidas dos povos. Para além de condimento, era utilizado como forma de conservação dos alimentos e de materiais naturais como peles e couros. Pouca gente sabe é que chegou a servir como moeda de troca, e, inclusivamente, como pagamento de jornadas de trabalho. É daí que vem a palavra salário. E se quiser aprender mais qualquer coisinha sempre pode meter conversa com os salineiros enquanto os observa na sua labuta diária.
Como é que se faz
Desde os primeiros tempos de funcionamento das salinas que a paisagem natural circundante e os seus métodos de fabrico não mudaram tanto assim. Rodeadas de arvoredo e de hortas de cultivo, onde a vinha tem um destaque dominante, labirínticos conjuntos de talhos em cimento (divisões de tamanho irregular pouco profundas) aglomeram-se à volta de um poço comunitário de 9 metros de profundidade. Ao todo são 450 talhos. A diferença mais marcante em relação a outros tempos é a forma como se eleva a água do poço. Hoje retirada com o auxílio de um potente motor, anteriormente era extraída através de duas picotas gigantes, que apesar de tudo ainda se encontram no local, a relembrar tempos antigos. De resto, todo o processo é rudimentar.
Até há pouco tempo, trabalhava-se dia e noite por aqui. Cada marinheiro, (como é conhecido o trabalhador das salinas), tinha que retirar cerca de uma centena de baldes de água seguidos, dificuldade agravada pela falta de iluminação e cansaço. Prevenindo males maiores, foi colocada uma escada no poço (ainda hoje existe lá uma) para que, caso caíssem nele, os trabalhadores pudessem rápida e facilmente sair e continuar a tarefa. É que mesmo não sabendo nadar, as águas contendo altos níveis de cloreto de sódio permitem flutuar e evitam o afogamento.
Paula Oliveira Silva 2001-08-29