Nota Editorial
No ano passado, a equipa do Lifecooler decidiu elaborar três roteiros subordinados ao espírito natalício. Num dos roteiros sugerimos passar o natal com as crianças do Colégio de Pina Manique, da Casa Pia. E, foi no seguimento da nossa rubrica intitulada “Há um ano” que voltamos a republicar este mesmo artigo.
Estamos cientes do actual momento conturbado que o Colégio atravessa, tal como a própria Instituição. E sem qualquer tipo de sensacionalismo, expressamos os nossos votos de solidariedade para com todos aqueles que sofreram ao longo de todo este processo.
Pesando os prós e os contras, não seria justo ou sequer ético aplicarmos qualquer tipo de auto-censura, pois entendemos com a maior dose de bom senso possível que as crianças da Casa Pia não podem ser penalizadas ou sequer esquecidas sob qualquer pretexto. Afinal, o Natal é para todos e não há nada mais bonito que o sorriso de uma criança.
Sair de casa para passear filhos, sobrinhos, irmãos mais novos… e o que mais houver de crianças na família é uma boa ideia, mas fazer felizes meninos que nunca vimos na vida e que também precisam, pode ser melhor. Ou pelo menos tão bom. Quem mais vive esta quadra são as crianças sem dúvida, e em Portugal existem milhares com problemas, familiares, económicos, e outros, que precisam de afecto, ternura e atenção. Muitos, perdem-se na vida, mas também há muitos, como os miúdos da Casa Pia em Lisboa, que encontram na instituição o apoio necessário para viverem bem, conseguirem uma educação estruturada e conforto emocional. E que tal visitá-los? Vai ficar espantado, com as condições de vida destes príncipes, que encontram aqui aquilo que perderam lá fora. Uma família. À parte dos mais de 1000 alunos externos, o Colégio de Pina Manique conta com 120 internos, repartidos por cinco lares. Cada lar tem em média 20 inquilinos e é patrocinado por um patrono, que além do dinheiro, lhes dá o seu próprio nome. O colégio é grande, enorme, com pavilhões e mais pavilhões, mas também há espaço para jardins e muitos campos desportivos. De futebol, de basket, de andebol, para além do ginásio onde até aulas de esgrima há. "O desporto é obrigatório" explica Alfredo Ribeiro ex-aluno e ex-dirigente desportivo de clubes de futebol. Acompanhando-nos pelo colégio fora, vai contando a história da instituição e todo o investimento feito para educar aquela crianças.
Casa de Bonecas
No lar Alfredo Soares, uma antiga manjedoura reconvertida, vivem 15 meninas e seis meninos, entre os cinco e os 14 anos. Na véspera tinha sido o jantar de Natal – com alguns dias de antecedência sobre a data, como é da praxe nestas coisas, e a mesa ainda está apinhada de travessas com rabanadas, filhoses, figos, passas, bolo rei e outras iguarias. É sábado de manhã e as meninas brincam com os seus walkmans, presente de Natal da própria Casa Pia.
Leonardo, coordenador do lar, recebe afavelmente e convida a entrar. Também ele ex-aluno da instituição, decidiu voltar, agora como funcionário. As crianças correm à nossa volta, excitadas. O que temos para oferecer é pouco mais que balões e rebuçados, e têm que chegar para todos. Mesmo assim, os obrigados são sinceros o os sorrisos de felicidade satisfazem ainda mais.
Mesmo com todo o apoio que recebem, a situação destas crianças não é fácil.
Há verdadeiros dramas que apertam a alma. Apesar de ter ar de duro, é comovente ver a aflição de Leonardo, homem maduro, confessando que às vezes nem dorme bem a pensar como será a vida de Cláudia, uma menina de oito anos com idade mental de cinco, filha de mãe toxicodependete, em estado de saúde terminal. "Como é que lhe vou dizer algum dia que está sozinha no mundo?" Como resposta, o vazio do silêncio.
N'Dalo Rocha 2001-12-25