Sabor a Douro

A alma de dona Antónia, a Ferreirinha, ainda paira por estes caminhos. Entre a velha Linha do rio Sabor e as margens do Douro altivo. Quintas magníficas e uma paragem chamada Vezúvio.

Em Junho, com sorte ainda há azedas no Douro, nascendo dos muros como ervas daninhas: é preciso procurá-las cuidadosamente, cortá-las pela haste mais funda e quebradiça, guardá-las por umas horas e comê-las como salada.

E à beira das lagoas de Trás-os-Montes, nos charcos da Beira Alta, nos cursos de água corrente que levam as primeiras poeiras da Primavera, que chegou há pouco, há merujes, ervinhas sedosas e de folha pequena, finíssima, verde-clara, própria para comer em segredo, como uma raridade que os gastrónomos das cidades não conhecem.

Acabam as amendoeiras em flor há muito, é claro. Mas fica nas árvores a lembrança desta Primavera chuvosa e pobre. Vale a pena conhecer esse percurso do Douro, da Beira e de Trás-os-Montes, partindo por estradas secundárias, tortuosas e raras nos roteiros, de Vila Nova de Foz Côa a Moncorvo, passando pelo vale do Pocinho, pelas encostas dos rios desconhecidos como o Sabor.

Por falar do rio Sabor: recomenda-se uma viagem assim. De Foz Côa, a estrada desce para o Pocinho. Podemos subir a Moncorvo para almoçar, mas o melhor é seguir pela estrada que acompanha a velha Linha do Sabor e que nos leva a Felgar ou Carviçais: trilho no deserto dos desertos, a estrada está ainda disponível para nos mostrar velhos castanheiros, pinhais nas velhas Minas do Carvalhal de onde saíam ferro e volfrâmio, logo depois de Torre de Moncorvo. Paramos em Carviçais. O restaurante chama-se Artur e é dos melhores para comer a posta mirandesa de lei, terminando com o doce de abóbora com amêndoa e queijo de ovelha churra da região.

Almoçámos cedo? Comemos pouco? Regresse-se a Moncorvo. São vinte ou trinta quilómetros por esse planalto rodeado de cerejeiras, trigo, pomares, ninhos e pombais perdidos entre altos de zimbro. Desça-se pela estrada de Moncorvo para o Rio Sabor: atravesse-se a ponte, estamos agora na aldeia da Foz do Sabor – o habitual é comerem-se os primeiros peixinhos de rio. Escalos, sim. Mas, sobretudo, barbos pequeninos, fritos em azeite e com sal bastante, estaladiços e lembrando o fim de tarde à beira do rio há muitos anos. As sombras da Foz do Sabor são deliciosas. O rio, ali à frente, junta-se ao Douro, ao coração do Douro Superior. Do lado de lá da Foz, na outra margem do Douro, a grande surpresa é a Quinta do Vale Meão, onde nasceram as primeiras vinhas de Dona Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, rainha das mulheres do Douro. Ali estão as raízes do vinho dos vinhos, o “Barca Velha”. Queremos mais?

Se queremos mais, vamos pela estrada fora, que é quase fim de tarde. A estrada devolve-nos ao Pocinho, mesmo junto do rio e da Quinta do Campo. Sigamos por ela: de Foz Côa passa-se ao Montargão, o vale magnífico e árido que deixa subir o caminho da direcção de Freixo de Numão, depois de Touça e Sebadelhe. Passemos pela Quinta da Sequeira, velha memória da melhor agricultura da Beira-Douro. Há um caminho que nos teria levado à Mêda, na Touça. Daqui em diante, subimos mais um pouco: vêem-se as ruínas das muralhas de Numão. Mais do que parar para saborear a paragem, ao longe, na estrada, a muralha de Numão lembra paisagens invisíveis a esta hora da tarde. Paremos, portanto: saboreemos a paragem, as muralhas e as primeiras penumbras da tarde do Douro. Há ali uma placa que diz Vezúvio. Trata-se de um vulcão?

Não. O Vezúvio é um dos paraísos do Douro. A estrada segue então, descendo em vertigem. Do outro lado da colina fica Olas, a aldeia escondida. Mas Vezúvio é mais do que um oásis – lembra, também D. Antónia Adelaide Ferreira e a tarefa de regeneração da casa deixada por António Bernardo Ferreira. Vinhas e vinhas, arvoredos dispersos, e, subitamente, o primeiro pomar da Quinta do Vezúvio, que era antes apeadeiro da Linha do Douro. A linha está quase parada, mas a Quinta do Vezúvio merece um filme: os telhados iluminam-se ao fim da tarde para receber essa luz das falésias do Douro, o espelho prateado das suas águas, o verde agreste e robusto das suas margens. As palmeiras gigantescas mantêm-se no pátio de velho chalet duriense. Crê-se que D. Antónia Adelaide Ferreira namoriscou ali – suposição malévola, já se vê, mas romântica – com o Barão de Forrester, que viria a morrer, afogado, no cachão da Valeira, mais abaixo, hoje amansado graças à Barragem que se pode ver de S. João da Pesqueira ou do alucinante miradouro de S. Salvador do Mundo. Já lá voltamos, ao miradouro.

A Quinta do Vezúvio é uma dos grandes memórias do gigantesco património de memória duriense. Pode pedir-se para visitar a casa, magnífica no seu longo corredor, pelo qual imaginamos os passos de D. Antónia Adelaide Ferreira seguindo na direcção das varandas de onde se há-de ver o pequeno ancoradouro no dorso do rio. Terra de caça e de vinha, o Vezúvio é o ideal para sonhos perdidos, para passeios de barco, para as madrugadas em que antigamente se via o voo do patos nas pequenas enseadas que o Douro abria entre falésias.

Mas, se tivéssemos seguido a estrada que nos obrigara a parar diante das muralhas de Numão, iríamos dar a S. João da Pesqueira. É uma vila parada na encosta que descerá para o Douro e nos levará ao Pinhão, um dos mais belos momentos do Grande Rio. A meio, o miradouro de S. Salvador do Mundo, erguido como um santuário de pedra no meio da própria pedra, como um monumento intocável, um nicho de rocha, uma plataforma para começarmos o voo sobre a Valeira, lá em baixo, rio domado e perigoso, violento e firme, enganador, apaixonante. Paremos por instantes em S. Salvador do Mundo, que é um lugar único. Os olhos perdem-se: fragas apontadas ao céu, rochas assentes no interior da terra, espaço aberto para as nuvens do crepúsculo ou para o calor do meio-dia, vegetação rara. E descemos. Descemos à procura da água.

Descemos à procura do Pinhão. Viramos à direita para atravessar a ponte junto à quinta que evoca a memória da Real Companhia Velha. No Pinhão há dois bons restaurantes – e os azulejos da estação dos comboios. Há um hotel espantoso, magnífico, imperdível. Há o espelho do rio. O espelho da água. O espelho do mundo.

Podíamos então subir pela estrada íngreme e difícil, vagarosa e tortuosa, passando pela Quinta do Noval. E chegaríamos a Favaios para beber o seu vinho. Ou para parar em Alijó, onde fica a Pousada do Barão de Forrester, diante de um planalto, de um vale, de uma montanha e de uma vila calma. Tudo ao mesmo tempo. Excelente garrafeira. Os Portos são bons. As varandas são tranquilizadoras.

Mas, a partir do Pinhão, podíamos seguir pela margem esquerda do Douro, que dá passagem para a mais bela vista do Rio. O Rio. O cruzamento para S. Pedro das Águias. As quintas, serenas, à beira do Douro. O desaguar de ribeiras (como a Teja, que alarga depois de Cedovim), rios minúsculos. Pomares frescos, miragens diante da água. Até chegarmos à Régua onde acaba este Douro altivo e começa outra memória.

Francisco José Viegas 2001-06-13

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