Para além dos painéis das estações mais conhecidas, como São Bento ou Aveiro, há uma quantidade impressionante de pequenas preciosidades dispersas ao longo da via, isto para só falar na Linha do Norte.
Uma viagem de Lisboa ao Porto (ou vice-versa) pela Linha do Norte pode ter um outro atractivo: a (re)descoberta dos azulejos de algumas das estações intermédias, terminando no esplendor dos painéis da estação portuense de São Bento.
Se iniciar o passeio em Santa Apolónia (pode também fazê-lo em Entrecampos, Alcântara-Terra ou nalguma das estações intermédias da Linha da Cintura) nem precisa de embarcar nos rápidos ou nos inter-cidades. Os suburbanos serão a companhia ideal para este começo de viagem, pois permitir-lhe-ão ir gozando a paisagem e descer onde quiser.
A primeira paragem obrigatória é Vila Franca de Xira. Os azulejos chamam imediatamente a atenção distribuindo-se ao longo das fachadas viradas para a gare. A sua colocação remonta a 1939 e o autor é um dos grandes nomes desta área: o pintor Jorge Colaço (1865-1942), responsável, entre outras, pela decoração das estações de São Bento, Marvão-Beirã, Castelo de Vide, Lousã, Évora, etc.
Apesar de terem sido acrescentadas construções recentes em betão, se focarmos o olhar no edifício antigo da gare, facilmente nos apercebemos de como a colocação, quer dos painéis, nomeadamente os do brasão da cidade e logotipo da CP, quer dos frisos, sejam estes à volta das janelas do primeiro andar ou ao nível do rés-do-chão, contribuem para o equilíbrio da fachada. E isto é verdade, quer se observe do lado da linha, quer do exterior.
Os painéis figurativos são nada menos de 20 e correm ao longo de todas as fachadas, embora com predomínio das viradas aos cais. Representam maioritariamente cenas da vida rural ribatejana, de acordo com os estereótipos dos anos 30, desde a colheita dos cereais à criação de touros de lide. Os pescadores tradicionais do Tejo – os avieiros – e suas típicas embarcações a remos também não são esquecidos.
A veia historicista de Colaço, tão bem expressa nos painéis de S. Bento, manifesta-se aqui num quadro evocativo da tomada de Goa, situado na fachada exterior da estação.
Da Azambuja a Santarém
É tempo de reembarcar, ainda num suburbano, e andar mais meia-dúzia de quilómetros até à Azambuja, com passagem pelo Carregado, lugar da primeira e aventurosa viagem do comboio em Portugal (28 de Outubro de 1856). Na Azambuja, onde termina o serviço suburbano da Grande Lisboa, encontramos mais azulejos para apreciar.
Há dois grandes painéis, um em cada topo da gare, e novamente a temática é regionalista: um representa a cultura do trigo na lezíria (com o curioso pormenor de figurar uma das primeiras debulhadoras a vapor), enquanto o outro mostra fragatas e barcos de pesca dos avieiros. Foram feitos em 1935 por Carlos Mourinho, pintor-ceramista da famosa Fábrica de Loiças de Sacavém.
Retomar viagem já implica a utilização de um comboio de maior fôlego, uma vez que os próximos azulejos só aparecerão em Santarém. Quase todos os painéis ficam ao nível da gare, protegidos pelo alpendre, deixando livre a rebuscada fachada, muito ao gosto “português suave” com águas- furtadas e beirados recurvados.
2007-02-21