Pois é! Mesmo dentro da cidade de Lagos, para ser mais fácil, siga as tabuletas que indicam, a verde, bem marcante, a presença do posto da GNR. Vai subir por ruelas sinuosas e deparar-se com uma estranha construção em forma de moinho. Aí o melhor é perguntar onde fica a Rua Ilha Terceira. Pois, se perguntar pelo restaurante Vista Alegre, o mais provável é que ninguém saiba do que se trata.
Não é evidente, mas chega-se lá. Reconhece-se pelo toldo, aliás dois, com o nome Vista Alegre inscrito. À partida, está perante mais um dos múltiplos exemplos de café com balcão aberto sobre a cozinha, seguido de uma sala de jantar, tão comum pelas terras de Portugal. Mas não é nada disso que se trata.
Aqui, na dita cozinha que, se for melhor observada, revela uma dimensão e uma zona de trabalho pouco usuais para este tipo de sítio, exerce a sua inesperada arte um francês, de seu nome Jean Claude Tuesca, natural de Lyon, com formação nesta área e experiência em vários locais de respeito no seu país de origem, como se irá ver de seguida.
Este local é o investimento conjunto com a sua mulher que, ao contrário do que se poderia imaginar, não é natural de Lagos mas de São Pedro do Sul, e que, já lá foram 11 anos, servem neste inesperado local.
Cozinha francesa de qualidade
Na leitura da ementa, a primeira surpresa. Nas sopas, a sopa de peixe, que até poderia ser à moda algarvia, e bisque de lavagante, esta, sim, uma raridade que, não resistindo à tentação da prova, se revela como o cartão de visita de um cozinheiro de primeira. Textura na perfeição, fatias em profusão do dito lavagante, toque de conhaque q.b., em contraste com o torrado das tostas servidas com a rouille da praxe. Uma delícia.
Passando a vista pelas múltiplas entradas, a surpresa renova-se e comprova-se a mestria do executante nas vieiras com molho sedoso de camarão. A salada de codorniz com um molho, redução conseguida, executada com vinagre de framboesa, com endívias, rabanetes e três tipos de alface, é outro bom exemplo.
Teste de outra ordem, passando ao prato de sugestão do dia, vem reforçar o agradável da degustação: costeleta com a carne no ponto indicado, com tomate, coberta de queijo, gratinado levemente no forno, em companhia de uma courgette recheada com estufado de legumes e, a melhor das surpresas, um rosti que não vai esquecer.
E as revelações vão-se prolongar nas provas do tornedó Rossini, tão maltratado por esse mundo fora, que aqui surge na receita original com a sua torrada frita, na finura exigida, a carne suculenta e alta e a terrine de foie que lhe compete. O molho, efeito da redução, acompanha na perfeição. A apresentação não foi esquecida, com a composição de legumes a condizer, onde uns elegantes cestos de batata frisada recheados com pequeninas moelleuses, batatas redondas fritas, reforçam o extremo cuidado posto por Jean Claude naquilo que apresenta.
O que se renova no carré de borrego, outro bom teste da arte de bem cozinhar, que vem acompanhado pelo mesmo complot de batatas, carne macia com todo o seu sabor, mais uma vez bem apresentada e com o corte adequado.
Nas sobremesas, pode optar-se por dois lados opostos. Fica-se bem de ambas as formas. A tarte de limão, na sua acidez elegante, como corte de uma refeição opulenta ou a mousse de chocolate, onde a conjugação da variante preta e branca atinge o equilíbrio, no mesmo registo de elegância. E há que atentar nos pormenores, desde a pimenta em grão ao pequenino chocolate suíço servido com o café. Refira-se que tudo isto se passa, apenas, com Jean Claude na cozinha e a sua mulher Cidália na sala, num ritmo alucinante, nomeadamente ao jantar, onde estrangeiros bem informados não perdem esta casa revelação.
Alegre é a vista (durante o dia) do mar de Lagos, no fim do casario branco, nesta pequena casa a merecer figurar na agenda de qualquer apreciador de boa comida.
Mafalda César Machado 2006-10-04