Restaurante Quinta de São Bento - Monchique

A cozinha da serra Algarvia.

Passeando pelo clima refrescante da serra de Monchique, que em certas alturas faz lembrar o ambiente especial de Sintra, ao virar de uma curva encontra facilmente a Quinta de S. Bento. Trata-se de um turismo de habitação, onde, passados os portões, se respira um ambiente diferente, nomeadamente se o passeio teve o seu início pela densidade da construção do litoral algarvio. A casa, com uma história curiosa que não cabe aqui relatar, transmite, até pela internacionalidade dos hóspedes, uma mistura de influência britânica com a preponderância de uma quinta algarvia da serra de Monchique. A marca fundamental é da responsabilidade da sua proprietária, que foi mantendo a quinta, recriando no seu restaurante, o fundamento desta escolha, o ambiente de uma sala de jantar, pois funciona dentro do edifício principal, com o acolhimento de quem é recebido, neste caso, ao almoço, como se fosse mais um convidado da casa. Na sala onde se multiplicam os espelhos, destaca-se um armário louceiro, mas a atenção vai para a grande vista que as amplas janelas permitem.

O regresso conseguido ao receituário do passado

A ementa varia muito, conforme as disponibilidades e mesmo as encomendas, se forem feitas com a devida antecedência, mas há que confiar nas sugestões de quem sabe.
E explica a fonte e razão dos sabores que aqui se servem.
Começando pelo princípio, as entradas, relativamente às quais fica o aviso da variedade em quantidade, prestem-se-lhes as devidas homenagens.
Cenouras marinadas com cebola, e o aroma, na quantidade devida dos cominhos e da salsa fresca, simultaneamente refrescantes e saborosas.
O queijo de cabra de meia cura contrasta na sua intensidade com a compota feita em casa, neste caso de uva.
Seguem-se os enchidos, de força, também de preparo caseiro, com o fumeiro presente no aroma e no sabor, onde constam a morcela de farinha, o bucho de arroz, o chouriço quase sem ponta de gordura, a cortar com as referidas cenouras. Como detalhe, o pão é cozido em forno de lenha, sem sal. Ou no registo oposto o pão de torresmos.
No seu todo, uma referência onde se conjugam, segundo a responsável, ascendências de receitas dos séculos XVI e XVII, de onde a presente especiaria da canela terá uma ligação às épocas áureas dos descobrimentos.

De pratos principais, ficam dois exemplos interessantes. Um espécimen pouco comum, a tintureira, exemplar de águas frias e profundas, do mar de Sagres, de porte avultado, raro no mercado, foi apresentado em ensopado, uma versão serrana do comum ensopado de cação, bem mais leve do que este, em fatia de pão com caldo e cebolada, alho q.b., um pouco de tomate fresco da quinta, com uma conjugação onde os sabores não perderam a sua identidade. Mais uma vez de raiz porcina, o cachaço, estufado longamente, revelou-se tenro e com gosto apurado, acompanhado com batata assada e uma fresca salada de alface com cebola e coentros. Os doces, calóricos e de origem conventual, mais uma vez com a marca diferente da Serra, a colmatar com um passeio saudável no refresco do ar puro deste recanto preservado.

Mafalda César Machado 2006-05-10

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