Príncipe por um dia

Um passeio diferente, por entre uma paisagem bucólica com estradas que circundam castelos e palacetes e rasgam a serra de Sintra. Para fazer com amigos e porque não com aquele(a) que mais gostamos?

Vida de fidalgo

A charrete arranca, sacudida por um leve impulso. Sem relincharem, Raio e Lucas trotam elegantemente, atravessando a Praça da República em direcção à estrada de Monserrate. Não são puros-sangue, pois os cavalos de linhagem são mais difíceis de controlar, devido à sua forte personalidade. E, apesar do cavalo branco, Raio, ser meio cruzado de lusitano, até se deixa conduzir bem, sem reivindicar em demasia o seu sangue rebelde. E Lucas, o cavalo castanho também é amistoso.

Avançamos pela vila fora e os turistas olham-nos com admiração. Há americanos, ingleses e espanhóis, mas principalmente alemães e japoneses, estes últimos que não perdem a oportunidade para nos tirarem fotografias. É certo que são os cavalos e a charrete o centro das atenções, mas já agora aproveitamos para tirar partido da situação. Fazendo uma pose empertigada e um leve sorriso nos lábios, retribuímos o gesto com um aceno de mãos pouco denunciado, tal como o Papa faz. Enfim, low profile para agradecer quem nos admira, tal como faziam os suseranos há um século e meio atrás, quando Sintra era o destino das férias reais. E nós, se não tivermos o tal sangue azul, ao menos podemos presumir, como qualquer fidalgo que se preze.

Tudo está perfeito, excepto o leve ar frio e húmido que sopra durante todo o ano na serra. Dá vontade de dizer ao cocheiro: "Aníbal, apetecia-me algo". E não se trata de um chocolate mas reclamamos pela mantinha para nos aconchegar o regaço. E como Aníbal, apesar de ser simpático não faz malabarismos, o melhor é prevenir-se desde casa com mantas e agasalhos.


A caminho de Monserrate

Os primeiros metros do percurso são feitos sob as pedras irregulares da calçada para prontamente alcançarmos o asfalto porém, não se sente nenhum desconforto. A charrete é bastante estável e exceptuando o tilintar dos guizos dos cavalos, até se pode considerar silenciosa.

Passado o Hotel Lawrence, a estrada começa a descer e é a vez de Aníbal puxar o travão de mão, uma alavanca perra que chia à medida que estrangula as rodas de modo a refrear o instinto de Raio e Lucas para que estes não embalem. Lentamente, a passo de trote vamos saindo de Sintra em direcção a Monserrate. Seguimos descontraidamente, e cruzamo-nos com alguns funcionários camarários que limpam ramos de árvores e folhagens da fonte dos Pisões, que nos acenam quando passamos.

Adiante, encontramos do lado esquerdo da estrada a magnífica Quinta da Regaleira, para muitos um dos mais impressionantes palácios de Portugal com conotações maçónicas, ainda que essa mesma teoria ainda esteja por provar para alguns. Como a charrete anda devagar, aproveite para se fixar no rendilhado do muro, apreciando a bonita fachada criada pelo arquitecto Manini no início do século XX. Se reparar nos trevos de três folhas que surgem no ornamento do muro verá que o 13º trevo encontra-se invertido em relação aos demais. Foi feito assim para espantar o azar, dizem. Pois, uma curiosidade que nos distrai, justamente no momento em que Raio e Lucas dão o melhor de si mesmos para vencerem a íngreme subida que encontram. Agora prosseguimos pela rua Barbosa do Bocage e passamos em frente ao palácio de Seteais, onde um grupo de musas inspiradoras pousa nos jardins para os fotógrafos. São modelos fotográficos. Acenamos mas ninguém parece reparar em nós, talvez porque estamos muito longe dos acontecimentos. Sem contemplações, Lucas e Raio continuam a puxar a charrete e o palácio vai-se afastando do campo de visão. Após Seteais, a rua estreita-se novamente pois é estrangulada por altos muros cobertos de musgo e heras que rastejam até à estrada. Uma paisagem natural onde pinheiros, sequóias, carvalhos e até alguns poucos eucaliptos compartem território. Por vezes, as copas das árvores tocam-se impedindo que os raios solares iluminem o asfalto, dando uma envolvência mística à paisagem, tão característica de Sintra, especialmente nos dias de nevoeiro.

N'Dalo Rocha 2003-04-22

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