A caminho da Alcafache
Só no distrito de Viseu, existem mais de vinte boas praias fluviais para se enfrentar o calor impiedoso do Verão, e a de Alcafache é uma delas. Desde de Mangualde até lá são 8 quilómetros para se chegar a uma aldeia que se tornou famosa devido às suas termas sulfurosas.
As propriedades destas águas são ideais para tratar pneumonias, reumatismos e até fazer curas de desintoxicação. Mas embora venhamos à procura de água para nos refrescarmos, com certeza que não pretendemos que esta seja exactamente sulfurosa. A comum água doce que corre no rio basta.
Atravessamos a magnífica ponte romana com mais de 20 séculos e tentamos estacionar o carro onde encontrarmos espaço.
A seguir, de toalha na mão lá descemos a ladeira a caminho do areal. Com espanto, apesar de ser esta apenas uma praia de rio quase escondida no interior de Portugal, vemos que há pessoas que não fazem qualquer tipo de distinção em relação às praias de mar. De toalha, sombrinha e jornal debaixo do braço, há quem nem se esqueça mesmo das raquetes ou da bola para a peladinha. O dia promete e ainda nem a manhã terminou, já o termómetro há muito superou a barreira psicológica dos 35º. Faz calor à brava e só um bom banho nos pode aliviar. Vamos a isso!
Doce água do rio
Para quem não está habituado é capaz de ter uma agradável surpresa ao meter o pézinho na água. Há algumas praias de mar cujas temperaturas geladas nos causam autênticos choques térmicos de nos deixar a bater o dente.
Em Alcafache, não há esse perigo. Molham-se os pés e rapidamente avançamos pelo banco de areia até sentirmos a água pelas virilhas. Pára-se e observa-se, estuda-se o terreno. Não existe poluição, mas as condições de luminosidade são bastante diferentes do mar e distam a anos luz de qualquer piscina.
Por não se ver o fundo, especula-se o que poderá existir debaixo daquela calma aparente por entre as águas profundas. Felizmente estamos em Portugal, por isso crocodilos, piranhas e outros leviatãs são riscados da lista à priori. Resta-nos talvez o peixe chucha. Esperemos que não.
Pousamos os pés onde não vemos, mas continuamos a avançar. Subitamente esta água tranquila torna-se agitada. Não é nenhum ataque surpresa, mas sim um jovem que passa por nós a chapinhar a água numas frenéticas braçadas de croll. Rapidamente este “torpedo” dirige-se à margem oposta e grita: “Aqui é bom para mergulhar”. Ufa, afinal é seguro e o batedor já abriu caminho no terreno. Agora é só seguir-lhe as pisadas, ou melhor, braçadas.
Não longe dali, três amigos atiram-se de uma corda presa na árvore e deixam-se cair no rio como pedregulhos. A cena lembra-nos o Tom Soyer e a miudagem diverte-se.
N'Dalo Rocha 2003-08-12