Portugal à lupa

Cartas Militares à escala de 1/25000. Obras de arte e geografia, indispensáveis a quem se quer perder sem exageros.

Seguindo a direito por um carreiro onde um carro não passa, chega-se à margem da barragem. Daí, segue-se por baixo dos postes de alta tensão, no cimo desce-se encostado a uma vinha, no final vira-se à direita e o pomar, onde hei-de satisfazer a fome, fica logo ali. Como é que eu sei estas coisas todas? Tenha nas mãos uma carta militar de Portugal, à escala de 1/25000 (ou seja, 1 cm equivale a 250 metros), que é fácil de ler e tão detalhada que só lhe falta mesmo dizer quantas pessoas estão no largo da aldeia. E que horas marca o relógio da igreja, mas isso hei-de descobrir quando lá chegar.

Desde há uns anos que os portugueses resolveram sair das estradas e andar por aí, pelo campo, pela costa, a fazer BTT, todo-o-terreno, grandes caminhadas ou puros passeios. Ainda bem que sim. As estradas dão jeito e levam a muitos lados, mas não levam a todos. Há sítios onde não se chega só com um mapa de estradas na mão. Claro que a alternativa pode ser partir à descoberta, sem rumo nem orientação e ver no que dá. É um método. Bastante falível e pouco certo, mas tem a vantagem de nunca sabermos o que vai acontecer. Para quem gosta de surpresas, não é mau. Para quem não gosta de surpresas desagradáveis, não é necessariamente bom. Um mapa militar – perdão, uma carta, é assim que se diz – tem a enorme vantagem de ter descrito quase ao milímetro tudo o que há no terreno. E para quem gosta do efeito surpresa, há sempre a possibilidade de fazer umas quantas descobertas já que entre cada edição das cartas podem passar dez anos. É que recolher dados e alterar as cartas custa e demora. Três anos, pelo menos. Ou seja, entre o que se tem na mão e a realidade, alguma coisa há-de estar diferente. Como é que eles fazem isto? Eles são os que trabalham no Instituto Geográfico do Exército, que estas coisas sempre foram feitas por militares. E dá muito trabalho. Desde 1938 que há aviões a sobrevoar o país equipados com máquina fotográfica que, cumprindo regras e instruções precisas, fotografam a espaços certos e repetidos até ser possível imprimir as fotografias com sobreposições de 60%. É assim que tudo começa. Sobrepostas as imagens, e com óculos ou equipamento informático adequado, é possível simular a visão estereoscópica, em três dimensões, e assim obter retratos do país, pedaço a pedaço, onde se vê serras, estradas, casas e até se distingue uma oliveira de um choupo. Recolhidas estas imagens, em computador selecciona-se o que é relevante: casas, pontes, estradas e caminhos, postes de alta tensão, depósitos de água ou poços. Tudo o que possa ter interesse é pacientemente delineado.

Henrique Burnay 2004-01-06

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