Descolagem
Parado no meio da pista, 50 metros à nossa frente, está o avião de instrução estilo teco-teco (monomotor a hélice). O piloto testa a tensão da corda que vai puxar o planador. Por rádio chega a confirmação de Check Point Charlie que podemos partir, e é quando avançamos. Sentimos o primeiro esticão na corda que nos atira para a frente. Depois o planador começa a embalar e qual não é o espanto quando em poucos segundos nos elevamos alguns metros da pista, primeiro do que o avião que nos puxa. A aerodinâmica está tão bem aplicada que o planador consegue planar quase com uma ínfima corrente de vento. Também, pudera! Tem 17,5 metros de envergadura (largura das asas) por 8 de comprimento.
Lá em cima
Enquanto se sobe, apanha-se alguma turbulência, como se fossem poços de ar e o planador mergulha alguns metros no vazio para depois estabilizar. A sensação é idêntica à de uma montanha russa, quando acelera na descida. Felizmente os cintos de cinco pontos servem para alguma coisa e continuamos bem agarrados ao banco. Com alguma angústia percebemos o que queria dizer o instrutor em terra, quando afirmava tranquilamente “nós voamos bem é na turbulência”. Cá está ela.
A 600 metros de altitude, finamente largamos o cabo de apoio e começamos a voar, livres como os pássaros. Não se trata de nenhum milagre, mas sim de saber aproveitar bem as correntes do ar. Por cima do Palácio da Pena vamos voando em espiral, aproveitando as correntes térmicas para nos elevarmos até perto dos 800 metros. Começamos a fazer voltas mais apertadas e a aceleração lateral aumenta. Eduardo Borges lança o aviso. “Se começares a sentir borbulhinhas no estômago diz qualquer coisa”. Segundo consta, já aconteceram situações embaraçosas, quando alguns “caloiros” no voo de baptismo se deixaram surpreender por uma ou outra erupção gástrica. Assim, é de evitar comer muito antes da aventura.
Num dia de céu limpo, a vista é linda. Estamos em Sintra, mas a Ponte Vasco da Gama aparece nítida no campo de visão. Vê-se para além de Vila Franca de Xira, O Convento de Mafra, o Cabo Espichel, e o mar. E mesmo por baixo de nós, os Palácios de Sintra, as casas da Vila e a estação de comboios parecem construções de legos. E talvez a sensação mais marcante é que parece toda a região está infestada de campos de golf, tal é o verde que abunda nos campos dos arredores de Lisboa.
Coragem
Depois vem a cereja no cimo do bolo. Não sabemos se o nosso instrutor endoideceu, mas oferece-nos de mão beijada a possibilidade de pilotar. Durante dois minutos sentimo-nos como Gago Coutinho, intrépido piloto, só que numa aeronave sem motor.
Opiniões há muitas para descrever esta sensação. Para o ex-piloto e sociólogo Francisco Aragão, a manete do planador “ deve ser tratada como uma mulher, com delicadeza”. De facto é muito sensível e funciona como um joystick de um qualquer simulador de voo. Para frente, o planador baixa o nariz e ganha velocidade. Para trás, sobe e perde velocidade. Para a esquerda é só necessário incliná-la para esse lado, e o mesmo se aplica para a direita. Sempre devagar, que esta aeronave não gosta de manobras bruscas.
Só com a força do vento, a velocidade média mantém-se próxima dos 100km/h. E ao inclinar o nariz por escassos segundos, ultrapassa-se rapidamente os 130 km/h, situação que causa alguma aflição ao piloto inexperiente. Eduardo Borges replica. “Calma que já cheguei perto dos 220km/h com este avião,” o que nos faz pensar que estamos a voar devagar.
N'Dalo Rocha 2002-01-15