Petiscos à moda do Norte

Imagine que está no Porto e apetece-lhe comer bem por pouco dinheiro. Saiba quais os melhores sítios para ir.

O cenário é o seguinte: está farto de chegar a um restaurante e ver sempre os mesmos pratos chiquérrimos com aquela decoração à francesa, com pedacinhos de coisas que não sabe muito bem o que são espalhadas pelo prato. Está farto da cerimónia de entrada, dos salamaleques com os empregados, de ter que cumprimentar cordialmente o cozinheiro, de ter que aguentar com aquele jazz nostálgico enquanto se vê com dificuldade em manter uma conversa seja sobre o que for. E, principalmente, está farto de chegar ao pós cafézinho e deparar-se com uma conta muito acima da meia centena de Euros. E afinal eram só dois e tudo o que tinham era fome… OK. Percebemos a mensagem. Apetece-lhe algo bom e barato. Que não seja por isso. Sente saudade daquela comida com cheirinho a sair do forno, trazida à mesa pela própria dona do restaurante, que se mete consigo e lhe diz que os seus filhos são umas carinhas larocas? De meter à boca as primeiras garfadas e lembrar-se de um certo sabor que tinham os pratos da avó lá da aldeia de Trás-os-Montes? De poder pedir vinho da casa sem vergonha, de se servir sem grandes etiquetas e estar à vontade enquanto se dedica a apreciar a comida? Sim, o Porto está cheio de locais como estes. Restaurantes simples, familiares, atenciosos, onde deixamos à porta as regras da cerimónia extrema e entramos para saborear o prato do dia, tendo a certeza absoluta que foi feito pelas mãos de uma cozinheira de gabarito, preparado naquele dia e típico, muito típico.

Comecemos pela Baixa, esse lugar de eleição para quem procura conhecer uma cidade. Vamos até à Praça dos Poveiros, perto da Batalha, para encontrar o Restaurante «O Buraquinho». Este é realmente um buraquinho, com uma decoração e um ambiente muito característicos, onde o que importa realmente é comer. Lá está a famosa carta dos gelados à porta, a lista com a ementa turística e o bom do vinho da casa a alegrar-nos a refeição. Bucho e rojões, é o que se recomenda. Acompanhado de vinho branco caseiro e conversa, muita conversa. Dizem os especialistas que é aqui que se come o bucho e os rojões como em mais nenhum lado. No fim não paga mais de dez euros, já com o tal geladinho incluído. «O Buraquinho» pode ser uma experiência demasiado profunda, para quem está habituado a saborear as tentações da «nouvelle cuisine française». Esta cozinha de nova não tem nada e de francesa muito menos. É bem portuguesa e tradicional. Tal como o fado, os pregões de São João e a voz animada que se ouve para a cozinha: «Ò filha, prepara aí mais uma de bucho para aquela cara linda!» Venha ele, que não seja por isso.

Álvaro Curia 2003-08-26

Receba as melhores oportunidades no seu e-mail
Registe-se agora