Conhecer as sensações do voo livre, por mais difícil que pareça, é uma experiência ao alcance de todos, ou pelo menos dos mais corajosos. Basta ir um fim-de-semana até Linhares da Beira, uma pequena aldeia da Serra da Estrela onde as casas em granito e as ruelas fazem as delícias de quem lá chega pela primeira vez. Mas não são os únicos atractivos.
A Escola de Parapente do Inatel fica precisamente numa dessas casas. É aí que começa a aventura. Depois de tudo tratado, e devidamente equipado com roupa desportiva e botas de montanha é altura de pegar nas mochilas, que comportam quase milagrosamente o parapente, e partir para a zona de descolagem. Alguns metros acima da aldeia, é aí que se começa a ter consciência do que é voar num parapente. Lá em baixo, as casas vão deixando de se ver, bem como o local de aterragem. Um descampado que serve também para os instrutores darem as aulas teóricas aos alunos da escola. O percurso até à zona de descolagem é feito de jipe por uma estrada estreita e recheada de curvas. Enquanto se arrumam os últimos pormenores, os mais experientes vão discutindo as condições meteorológicas do dia. Nestas coisas não se pode confiar em previsões mais ou menos acertadas.
Lá em cima
Os voos, para os estreantes nestas andanças, são feitos num bi-lugar. Com uma asa um pouco maior do que o tradicional parapente, só para uma pessoa, os bi-lugares são pilotados por um monitor. Ao aventureiro resta o duro trabalho de apreciar as paisagens vistas do ar. Isto, claro, depois de perder a primeira sensação: de medo. Feito isto, chega-se frequentemente ao ponto de partida para muitos se inscreverem num dos cursos da escola, e que conduzem à possibilidade de se tornar num piloto autónomo.
Um voo de 15 minutos num bi-lugar custa cinco mil escudos. Se preferir ficar mais tempo no ar o preço sobe para os oito mil.
Mesmo assim, e depois de aterrar são e salvo, a vontade é de repetir tudo novamente e o mais rápido possível.
As melhores alturas para voar, pelo menos no inverno (e agora parece que é inverno o ano todo), é de manhã cedo ou ao final da tarde. Nestas horas o vento está mais fraco, possibilitando melhores condições de voo. O parapente é uma actividade muito dependente das condições atmosféricas. Com chuva o melhor mesmo é esquecer. Trovoadas e outras intempéries do género ainda são menos aconselháveis, como se calcula.
Para evitar desilusões e dar o fim-de-semana por perdido, confirme com uns dois dias de antecedência, junto da escola ou directamente com o instrutor, a ida a Linhares da Beira. De qualquer forma, corre sempre o risco de não conseguir voar, mas não desista. A humanidade demorou milhares de anos a conseguir esta proeza, não há-de ser por um fim de semana que vai agora vai desistir.
Pés na terra
Aterrando, o corpo pede comida. E mesmo que não peça, dê-lhe que vai ver que não se arrepende. E em alguns restaurantes da Serra da Estrela comer também pode ser uma aventura. Diferente do parapente, é certo, mas igualmente carregada de acção. É o que acontece no Restaurante O Albertino em Folgosinho, na encosta norte da serra a pouco menos de 15 quilómetros de Linhares da Beira. “Quem entra no Albertino tem que sair satisfeito”, é o lema da casa. E, na verdade, é difícil isso não acontecer. O preço é fixo, dois mil escudos por pessoa mas isso nem é o melhor. Depois de confortavelmente instalado, já com as entradas na mesa, é altura de decidir se vai escolher um prato específico, ou experimentar todos. A escolha, e porque a fome aperta, é quase sempre a segunda opção. Para começar, um pratinho leve, javali com feijão. Segue-se uma vitela e para terceiro prato um cabrito assado no forno. Como se não bastasse, e porque todos têm que sair satisfeitos, há ainda um arroz de cabidela e um leitão. À medida que vão trazendo as travessas, os simpáticos empregados ainda têm a coragem e o descaramento de perguntar se quer repetir. Devem pensar que somos ursos a preparar a hibernação. As bebidas e as sobremesas, que também pode experimentar todas, estão incluídos no preço. Depois de pagar os dois mil escudos tem descer para beber o café. Provavelmente já com cem escudos na mão, fica a saber que os cafés também estão incluídos no preço, bem como um digestivo. Estes homens gostam mesmo de nós. E por falar em comida, não se esqueça antes do regresso de comprar queijo da serra. A dieta pode esperar. Por um passeio, por exemplo. O dia seguinte pode sempre ser passado pela tais ruelas estreitas de Linhares da Beira, ou passeando à volta, a ver de perto o que na véspera se avistou do ar.
Nuno Maia 2001-06-20