Pelas praias e aldeias de Sintra

No litoral de Sintra existem praias com história e no interior "aldeias em verso". Capelas antigas e uma igreja com o estranho costume de lá ter deixado entrar animais. Ainda um eléctrico centenário que faz uma viagem de regresso ao passado.

As praias de antes

Estamos no início do século passado e o povo desce da vila de Sintra a bordo do eléctrico que tem como destino a Praia das Maçãs. Do programa domingueiro tantas vezes repetido, inclui-se o molha pés para os audazes e a sesta no areal para os mais velhos, já que a água daqui é fria e o que se pretende é descanso. Assim faz, quem não tem posses para mais. Nestes dias, quem não sai dos seus chalets para se banhar na praia é a alta burguesia. Tudo a bem da separação de classes. Praia familiar, aqui veraneavam várias gerações em simultâneo, avós, pais e filhos. E assim acontece ainda nos dias de hoje, embora muitas mudanças tivessem acontecido desde então.

Na bonita povoação das Azenhas do Mar, o tempo parece não ter passado. Sobressai assim à primeira, uma mancha alva composta por um aglomerado de casas que se empoleiram na falésia, uma autêntica obra-prima de arquitectura popular. Espalhadas pela aldeia, mós dos moinhos de água que recordam a função de outros tempos. Do árabe “assancha” que significa “moinho de água”, esta é uma das grandes heranças do conhecimento dos sarracenos quanto a sistemas hidráulicos num tempo em que o Homem era natureza porque convivia e aprendia com ela.

As praias de agora

Já conheceu melhores dias, a Praia das Maçãs. Não pelos restaurantes que continuam a trazer à terra, seja qual for a estação do ano, gente que gosta de comer bem, mas pelos chalets em ruínas, que tanto arrebatamento causaram. Autênticos palácios estivais trabalhados a estuque e com decoração a azulejo são símbolos de uma decadência visível da beira da estrada. Foram as partilhas e noutros casos as falências que dividiram e destruíram patrimónios. Perceptível em muitos muros das propriedades é a palavra quartos, traduzida em diversos idiomas. Sinais do tempo em que o turismo é quem mais ordena.

Pisando o areal vemos as pegadas de outros como nós que já cá estiveram. Há também marcas de gaivotas que tomam este espaço como sendo delas. Já bem basta de Verão quando veraneantes de toalha e chinelo na mão as espantam para longe. É aqui que vem desaguar a ribeira de Colares, também chamada de Maçãs, conhecida por transportar através das suas águas até ao areal, o fruto proibido que tão abundante foi na região.


A linha do eléctrico é que ainda vai andando com a função cada vez mais difícil de regresso ao passado. Apesar de inicialmente (1904) ligar apenas o centro da vila de Sintra à praia das Maçãs, o prolongamento até às Azenhas do Mar foi a próxima e última paragem que aconteceu apenas 26 anos depois. O sucesso deste meio de transporte foi tanto que chegou a servir para carga de mercadorias dos vinhos de Colares e até de produtos agrícolas das aldeias do interior. Agora está o eléctrico parado com os carris quase tapados pelas ervas. Só funciona nos meses de estio (Julho e Agosto) e aí sim, durante todos os dias. É mais uma forma de manter viva uma tradição do que outra coisa, já que os carros particulares são o transporte por excelência.

Paula Oliveira Silva 2003-03-03

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