Entre Odeceixe e Aljezur, o Algarve é outro. Há praias, sim senhora, mas em nada semelhantes às da mesma região mais a sul. Os campos de relva viçosa e muitas vezes artificial estão a algumas dezenas de quilómetros, por isso o verde que aqui se vê pode ser mais baço, mas também não é plantado, o que entre outros factores justificou a criação de um dos mais recentes parques naturais nacionais, o do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (1995). Esta é a maior extensão de litoral português sujeito a uma legislação de protecção e abrange uma vasta zona de 100 km de costa. Espaço de fronteira entre a terra e o mar, falar do sudoeste é contar a história de um oceano que sustenta todo um mundo aquático e torna ainda possível em terra, a existência de uma flora e fauna específicas. A paisagem é única e dela falaremos já de seguida.
Uma ribeira, um limite geográfico
A fronteira entre o Alentejo e o Algarve é-nos indicada pela ribeira de Seixe, essa mesma que esteve na origem do nome da praia e da povoação: Odeceixe. Antes de chegarmos à beira-mar, há que passar pela vila. Nem o frio e a chuva, e muito menos o calor e o Sol conseguem afastar os hippies que por aqui se encontram, seja qual for a estação do ano. As carrinhas de matrículas estrangeiras que se encontram à beira das estradas e em sítios bem menos acessíveis, denunciam nacionalidades. Alemãs e holandesas sobretudo.
O aglomerado de casas estende-se ao longo dos outeiros, na tentativa de não perder o mar de vista. No topo, um moinho domina. Para conhecer um pouco melhor o povoado, aconselha-se o estacionamento do veículo e a continuação do percurso a pé. Numa das ruas, uma espécie de adega-museu recria o processo de produção e armazenagem do vinho. Há ainda a igreja que é matriz com imagens seiscentistas e com uma pia baptismal heptogonal de estilo manuelino. Restaurantes e cafés também não faltam com os menus em português, inglês, francês e alemão. Haja espaço na ementa.
Daqui segue-se a praia. Poucos são os quilómetros que a separam da povoação, o que nada significa quanto ao tempo que se demora até lá chegar. Tudo por culpa da paisagem que prende a atenção, com os montes que abruptamente terminam no oceano, perseguidos pela ribeira mortinha por também lá chegar. No vale, os terrenos são verdes e servem de pasto a manadas e a rebanhos. Contudo, assim que se fica mais próximo da aragem marinha, a vegetação do cimo dos montes começa a escassear, e que o digam os pinheiros. A terra transforma-se em rocha, mas ainda assim sentimos o cheiro a urze e a esteva. E aqui estamos junto a um dos miradouros que observam a praia, contemplando uma paisagem que tem tanto de natural como de bela. O cheiro a ervas espontâneas persegue-nos, ou nós a ele. Por isso, por mais completa que fosse a descrição, não conseguiria acompanhar o que se vê ao vivo e a cores. Só um passeio por lá pode desfazer de uma vez por todas dúvidas quanto à verdade do que se diz.
Paula Oliveira Silva 2003-04-14