Pelas águas do rio Sado

A bordo de uma embarcação típica do estuário do rio Sado - o galeão do sal “Zé Mario” – descubra os segredos da margem norte de um rio cujas marés marcam o ritmo de um passeio fluvial.

No compasso das marés começa uma viagem especial pelo rio Sado. O embarque no galeão do sal “Zé Mário” – antigo barco de transporte de sal da região, com um porte esguio, grandes velas brancas e pintura colorida – tem lugar no cais do Jardim da Beira Mar, em Setúbal. Ao sol da manhã a rota fluvial tem início, e séculos de história marítima passam a desfilar perante os olhos do visitante. O robusto veleiro deixa entrever nos seus 18 metros de comprimento e quase 20 toneladas de peso a longa tradição de trabalho marítimo de transporte do sal da região, que durou até finais da década de 70 do século passado. Com as grandes velas içadas – uma carangueja e um estai -, o galeão do sal “Zé Mário” navega pelas águas do Sado numa rota já sulcada desde os tempos dos fenícios e romanos, cujos vestígios estão patentes em alguns locais na margem norte do rio. Além da história marítima secular, o passeio fluvial irá revelar uma variada fauna e flora.

Por este rio acima

Na vasta extensão da Reserva Natural do Estuário do Sado – uma área protegida na Costa Azul com cerca de 13.500 hectares –, as águas do rio e do mar misturam-se para compor um cenário marinho de uma riqueza natural exuberante.

Nos sapais, as areias e os lodos marinhos abrigam o plâncton vegetal e as minhocas que irão alimentar as aves e os peixes. Nos matos e matagais das margens, com suas areias de deposição oceânica trazidas pelo vento, uma miríade de insectos e invertebrados servem de banquete aos predadores.

As galerias ribeirinhas, formadas a partir das águas paradas dos charcos e das lagoas apuladadas, quase se misturam às águas correntes dos ribeiros e dos afluentes. Doce e sal diluem-se em variadíssimas proporções ao longo das margens do Sado, servindo ora à vegetação florestal, robusta nas suas acácias, pinhais, choupais e eucaliptos, ora às culturas agrícolas, como os arrozais, as hortas, as vinhas e os pomares.

Aves de todos os tipos

Na margem norte do rio, especialmente no inverno, as garças reais, garças brancas, cegonhas e flamingos invadem o estuário, acompanhadas por patos reais, patos bravos, marrecos e pássaros de bico. Espécies tipicamente estuarinas, como os pilritos, os maçaricos e os borrelhos, são migradoras de longa distância, vindas da tundra Ártica, da Gronelândia à Sibéria.

Mas as cegonhas brancas e os flamingos são as espécies verdadeiramente emblemáticas deste estuário. As cegonhas têm na bacia do Sado um dos principais núcleos reprodutores de Portugal, com várias colónias na reserva natural. Os flamingos nidificam nas áreas protegidas do estuário e a sua população aumentou acentuadamente nos últimos dez anos.

Os perna-longa procuram os muros das salinas para nidificarem enquanto as gaivotas, os mergulhões, os corvos marinhos e as andorinhas do mar se aventuram nas zonas mais profundas à procura de peixe. As salinas e os arrozais da região são palco para as refeições e a reprodução destas espécies; e os caniços e salgueiros das represas são cordões de abrigo e acasalamento. Do convés do galeão “Zé Mário”, a vista alcança todo este horizonte azul polvilhado de asas coloridas e do verde da mata.

Nysse Arruda 2001-08-01

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