Neste sistema de lagoas costeiras de grande riqueza biológica são as aves que se destacam, chegando aqui a representar mais de metade das espécies ocorrentes em Portugal. Uma pérola do litoral alentejano, onde é possível encontrar belos enquadramentos naturais, e tranquilos, com a atmosfera especial do litoral atlântico.
O litoral tem um encanto particular, e quando não está tomado pela construção, manifesta-se de forma majestosa, como um grande espaço de contacto entre os mundos terrestre e marítimo. Portugal tem uma extensa faixa costeira quer alcantilada e rochosa, quer baixa e arenosa. Ora, é num dos maiores cordões dunares de Portugal — com cerca de 60 quilómetros, entre Tróia e Sines — que se situa este complexo lagunar. E são as dunas que separam o mar das duas lagoas: a maior, de Santo André, e cerca de oito quilómetros a sul, a da Sancha, de dimensão bem mais reduzida, e sujeita a menor pressão humana.
A reserva engloba um mosaico de biótopos compreendidos por lagoas, incluindo caniçais e ribeiras que as alimentam, várzeas com pousios ou pastagens, pinhais, praia e dunas de grande diversidade botânica, incluindo espécies endémicas de Portugal.
A lagoa de Santo André é ainda composta por dois sistemas de braços (ou poços) que se alongam para sul, a face menos povoada da Reserva, ao contrário da margem norte onde o povoamento humano surge algo disperso e a pressão é maior.
Uma costa em permanente transformação
A actual fisionomia desta zona costeira é o resultado de um processo de evolução contínuo. Há cerca de 7000 anos estas lagoas (tal como a de Melides) não passavam de grandes baías ou reentrâncias.
Depois um antigo estuário transformou-se na lagoa de Santo André pela formação do cordão dunar que o isolou do mar, seguindo-se uma história de sucessivas aberturas e fechos ao oceano, com a última ligação a verificar-se por volta do século XVIII. Actualmente, todos os anos, por volta de Março e Abril é restabelecida essa ligação com ajuda mecânica ou naturalmente quando o mar consegue romper a barreira dunar.
Mesmo no presente o clima e as estações do ano têm o poder de alterar as características físicas deste espaço. A lagoa de Santo André tem uma superfície média de cerca de 170 hectares, que se podem transformar em 360 hectares em invernos de elevada pluviosidade, tal como os seus 1,8 metros de profundidade média poderem ultrapassar os 4 metros em determinadas zonas. E não é só a fisionomia que se altera com as estações. É todo um ecossistema em permanente processo dinâmico. Isso é visível sobretudo com as aves, que enchem a lagoa de vida.
David Travassos 2006-03-08