Um leito desenhado entre montes quentes ibéricos com cheiro mediterrânico. É o Guadiana e os seus afluentes que guardam os melhores segredos deste parque natural. De animais raros e plantas, de paisagens e de história e cultura não fosse Mértola uma terra filha deste rio. Mas também há o Alentejo dos montados de azinho e dos campos cerealíferos onde moram abetardas.
Uma área vasta e pouco habitada, no Alentejo profundo, onde corre o troço mais selvagem e acidentado do Guadiana em Portugal. Uma região onde o Estio escalda e a chuva é tímida ao longo do ano. Por isso, uma certa aridez na paisagem, com a sua beleza particular, animada com as águas do grande rio e de alguns afluentes, cheios de vida. Mas não de uma vida qualquer, pois nelas se regista uma das maiores diversidades de peixes dulçaquícolas e migradores em águas interiores de Portugal.
Das cerca de 22 espécies, nove são endémicas da Península Ibérica, das quais três — o ameaçado saramugo (Anaecypris hispanica), a boga-do-Guadiana (Chondrostoma willkommii) e o barbo-de-cabeça-pequena (Barbus microcephalus) — estão restringidos a esta bacia hidrográfica. E este foi o último rio em Portugal a servir de morada a um peixe de fisionomia excêntrica: o grande solho ou esturjão (Acipenser sturio), actualmente extinto no país, depois de terem sido aqui pescados os últimos exemplares no final da década de 1970.
Vales de vida selvagem
Os vales encaixados do Guadiana e afluentes, desde a ribeira do Vascão à de Terges e Cobres, albergam uma não menos rica diversidade de plantas e de animais terrestres. Em parte significativa dos seus troços, as características de relevo, menos propícias à actividade agrícola, proporcionaram a manutenção de formações vegetais nativas mediterrânicas de grande diversidade florística.
São autênticos mundos escondidos da “superfície”. A disponibilidade de alimento e abrigo, e a reduzida perturbação humana, tornou-os refúgios de vida selvagem. As escarpas que marginam o Guadiana e afluentes oferecem ainda locais de nidificação para uma série de aves de conservação prioritária. É o caso da cegonha-preta (Ciconia nigra), uma ave mais tímida e menos gregária que a sua congénere branca, que regressa de África, onde passa o Inverno, para aqui nidificar.
Com ela também chega o abutre-do-Egipto (Neophron percnopterus), outro habitante das fragas. Ambos se juntam às espécies residentes deste biótopo como o corvo (Corvus corax) ou rapaces como a águia-de-Bonelli (Hieraaetus fasciatus), a águia-real (Aquila chrysaetos) e o bufo-real (Bubo bubo), o maior mocho da Europa.
Já a vila de Mértola alberga uma das maiores colónias nacionais de francelho-das-torres (Falco naumanni). É uma pequena espécie de falcão, especialista na captura de insectos, que inverna em África e regressa na Primavera. Várias dezenas de casais utilizam para nidificar as cavidades do castelo.
David Travassos 2006-05-17