Verdadeiro tesouro patrimonial. Uma serra branca que se eleva a pique de um mar azul inebriante, formando as mais altas arribas costeiras de Portugal continental. Relíquias únicas de frondosas matas mediterrânicas. Um verdadeiro jardim botânico de mil perfumes e cores. O sagrado, a história e a cultura. O queijo e o vinho. As histórias do mar.
Um pedaço do Mediterrâneo na costa atlântica. Mas um pedaço de que se orgulharia qualquer ponto dessa região. Pela paisagem e geomorfologia, pela riqueza botânica, pela relação com o mar, pelo património construído. Cantada por poetas, procurada por monges como lugar de meditação e de encontro divino, venerada por botânicos, palmeada por aqueles que lhe querem conhecer os segredos. Para quem a conheceu ao longo dos séculos a Arrábida não deixou ninguém indiferente. Situado entre o cabo Espichel e o confluência do Sado, este Parque Natural estende-se por um maciço calcário que acompanha uma costa voltada a sul (mais precisamente de sudoeste para nordeste). São três linhas de relevo paralelas formadas pelas serras do Risco (380 m) e Arrábida (501 m), S. Luís (392 m) e Gaiteiros (229 m), e S. Francisco (256 m) e Louro (224 m). Tudo concentrado numa área relativamente pequena: um rectângulo com cerca de 10 quilómetros de comprimento por cinco de largura. Mas pela fisionomia, é grande na sua infinidade de recantos.
Uma costa notável
As duas primeiras serras são as que se relacionam com o mar e encerram os maiores valores botânicos, configurando o troço costeiro mais alto de Portugal continental ao culminar numa arriba que atinge os 380 metros no Píncaro, na serra do Risco. Vista do mar ou de terra, toda esta fortaleza calcária assume uma imponência arrebatadora. Pelos desníveis e formas do relevo, pela combinação dos brancos da rocha, dos verdes da vegetação e do azul marinho.
E esta costa alcantilada, numa grande parte quase inacessível, tem segredos bem guardados, sobretudo de vida selvagem. Ela é morada de uma comunidade de animais associados a escarpas, incluindo espécies ameaçadas no contexto nacional.
Mas no meio de tais penhascos voltados para o mar também se abrem formosas praias, integradas no aconchego da montanha e muito procuradas no Verão. Albarquel, Figueirinha, Galápos, Coelhos, Alpertuche e claro, a do emblemático Portinho de Arrábida, grande enseada emoldurada pelas imponentes encostas calcárias cobertas de verde mediterrânico. E para completar este quadro de rara beleza, vigiando a praia e a serra do mar, o ilhéu da Pedra da Anixa, classificado no Parque Natural como Resera Zoológica devido à sua importância para aves marinhas e vida subaquática.
No Portinho vale ainda a pena referir dois motivos de interesse: a poente, a Fortaleza de Sta. Maria da Arrábida (séc. XVII), propriedade do Parque Natural, onde está instalado um pequeno museu oceanográfico, e a nascente, as ruínas romanas de uma unidade de salga de peixe.
David Travassos 2006-03-22