Terra de aves marinhas, de plantas únicas, de fértil vida subaquática, de lendas e histórias heróicas, de homens pescadores. Aqui o imaginário do mar se torna realidade. Que o diga a fabulosa Fortaleza de S. João Baptista.
Na Primavera, ainda antes de se atracar na Berlenga Grande, já é visível o frenesim aéreo de centenas ou milhares de gaivotas-argênteas-de-patas-amarelas (Larus cachinnans). Magníficas arribas de granito rosa e salmão elevam esta ilha sob a forma de um planalto. Lá em cima o farol, e em baixo as águas límpidas de azul e verde esmeralda. Aportamos no Carreiro do Mosteiro, à beira do Bairro dos Pescadores. Estamos a 5,7 milhas do Cabo Carvoeiro (cerca de 10 quilómetros), e na entrada de um novo mundo. Esta ilha, com os suas ilhetas e recifes em redor, constitui um dos três grupos de ilhéus que formam o arquipélago das Berlengas. Os outros são as Estelas e os Farilhões-Forcadas. A Berlenga Grande, a única “verdadeira ilha” do arquipélago, tem pouco mais de 1,5 quilómetros de comprimento por cerca de um de largura. Pequena para nós mas grande para a natureza. Para além de um pequeno bairro de pescadores, uma pequena área de apoio ao campismo, dois ou três cafés-restaurantes, um farol, uma cisterna abandonada, e a genial Fortaleza de S. João Baptista, existem ainda cerca de 100 espécies de plantas, de porte herbáceo e arbustivo, algumas das quais únicas no mundo. É o caso da Armeria bergalensis, a Herniaria berlengiana e a Pulicaria microcephala. Outras, apenas crescem aqui e no litoral Atlântico ibérico. Na Primavera o solo da ilha enche-se de cor e exuberância. É a altura propícia para se conhecer a natureza da Berlenga e os recantos da sua recortada linha de costa. Para uma melhor gestão dos valores naturais, foi estipulado um número máximo de 350 visitantes por dia à Berlenga, e delimitada uma parte da ilha como reserva integral, onde o acesso é apenas permitido por razões científicas ou de monitorização ambiental.
O êxodo dos airos
Airos (Uria aalge), cagarras ou pardelas-de-bico-amarelo (Calonectris diomedea), corvos-marinhos-de-crista (Phalacrocorax aristotelis) e gaivotas-argênteas-de-patas-amarelas, resumem as espécies de aves marinhas residentes ao longo do ano na costa continental portuguesa, sendo as Berlengas o único lugar onde elas coexistem para nidificar.
Tem pouco menos de meio metro de comprimento, cabeça e parte superior castanho escuras, peito e abdómen brancos, bico relativamente comprido, e quando em terra mantém-se de pé como um pinguim. É um airo, o símbolo da Reserva, uma ave sobredotada para a vida marinha: voa relativamente mal (mas com grande rapidez) porque tem um corpo maciço e asas muito curtas; pousa, alimenta-se e dorme no mar, e só tem de vir a terra para se reproduzir, incubar os ovos em exíguas prateleiras nas arribas e cuidar dos juvenis. Os seus mergulhos duram quatro, cinco minutos, e ao “voar” debaixo de água consegue chegar aos 30 metros de profundidade, embora geralmente não desça tanto.
Este é o único local onde nidificam no país, que representa o limite sul da sua distribuição no Atlântico europeu. Mas enquanto em 1939 existiam cerca de seis mil casais, em densas colónias nas escarpas costeiras da ilha, hoje, passados 65 anos, restam menos de 15 aves. Como nidificante é uma espécie em perigo crítico de extinção em Portugal. Causas? Nada confirmado, mas a hipótese apontada como mais provável é o aumento da temperatura do mar pelo aquecimento global do planeta, conduzindo para norte algumas espécies de peixes de que se alimenta.
David Travassos 2006-07-12