Passeio na Natureza - Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina

Das mais singulares áreas protegidas portuguesas

Uma costa digna do Atlântico e imponente pela sua dimensão, fisionomia e despovoamento. Cerca de 150 quilómetros de arribas baixas e mansas ou altas e agrestes, negras de xisto ou claras de calcário, ilhotas, dunas, estuários, barrancos. Espécies de plantas únicas no mundo e uma avifauna costeira das mais ricas da Europa. 
  
  

Portugal já não tem verdadeiras florestas nativas, nunca teve montanhas altas e extensas, mas ainda tem uma costa onde se sente a dimensão dos grandes espaços selvagens. Infelizmente a tendência é contrária mas com dificuldades vai resistindo. Não existe nenhum grande aglomerado populacional que provoque uma notória descontinuidade na linha costeira.

A costa sudoeste é caracterizada por um planalto costeiro contínuo que se estende entre S. Torpes, onde começa a norte o parque, e Vila do Bispo, já próximo de Sagres. Quase sempre alcantilada, apenas interrompida pelos vales de alguns cursos de água, vai subindo de altura à medida que se caminha para sul, atingindo na Costa Vicentina as maiores elevações, com arribas a chegarem aos 150 metros, num dos troços costeiros mais altos de Portugal continental.

Imperam as tonalidades cinza e negra de xistos e grauvaques, assumindo um tom agreste e austero nas arribas altas da Arrifana e da Torre da Aspa, ampliado pelos ventos e ondulação forte que batem a costa ocidental. Mas também há os brancos e amarelos dos afloramentos de calcários e margas, visíveis na Ponta da Carrapateira, e entre São Vicente, Sagres e Burgau, agora num ambiente mais mediterrânico em costa voltada a sul e mais abrigada do vento.

É uma colecção de contrastes entre o azul atlântico, e os cinzentos, pretos, brancos, amarelos das arribas, e até os vermelhos do grés, como nos casos da baía do Telheiro e da Carrapateira. A rocha faz-se ainda sentir quando irrompe do mar sob a forma de farilhões ou ilhotas, sobretudo na costa Vicentina, chegando ainda a formar pequenas ilhas como a do Pessegueiro, com o seu forte em ruínas, a sul de Porto Covo. Ao longo da costa ocidental, e suspensos nas arribas, estendem-se campos dunares, chegando a assumir dimensões consideráveis, como a norte de Vila Nova de Milfontes ou a sul de Almograve.  

Arribas ricas em vida selvagem

São as vertentes rochosas fustigadas pelo mar que guardam alguns dos principais trunfos do parque natural, sendo consideradas das mais ricas em fauna do continente europeu, particularmente aves. A costa sudoeste alberga uma população de cegonhas (Ciconia ciconia) que utiliza as escarpas marítimas e ilhotas para nidificar – caso único no mundo.

Mas talvez o seu maior emblema tenha sido a águia-pesqueira (Pandion haliaetus). Foi durante anos o único local do país onde a espécie residia (porque outros espécimes do Norte da Europa descem ao Sul para invernar), mas entretanto a perseguição e perturbação humanas foram progressivamente eliminando os casais. Apesar de já não nidificar no nosso país ainda pode ser vista amiúde como ave migratória. E até há alguns anos também nidificavam nestas escarpas litorais vários casais de águias-de-Bonelli (Hieraaetus fasciatus), embora pelas mesmas razões se tenham mudado para o interior.

Mas estas encostas varridas pelo Atlântico ainda dão abrigo e alimento a uma população saudável de falcões-peregrinos (Falco peregrinus), no papel de grandes predadores, e exclusivamente de aves, caçadas em voo. São esses voos picados que fazem jus à sua condição de animal mais veloz do mundo, podendo ultrapassar os 250 quilómetros por hora.

No conjunto das cerca de 25 espécies de aves que habitam as arribas, destaque ainda para a população de gralhas-de-bico-vermelho (Phyrrocorax phyrrocorax), uma espécie ameaçada em Portugal que utiliza os afloramentos calcários da Costa Vicentina para nidificar, ou para o peneireiro-das-torres (Falco naumanni), um pequeno falcão globalmente ameaçado.   

David Travassos 2006-04-12

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