Passeio na Natureza - Parque Natural da Serra de S. Mamede

O tecto do Alentejo.

Aqui se combinam montados de sobro com carvalhais, soutos com olivais. Granitos com xistos e calcários. Montanha com peneplanície. O Alentejo com a Beira Baixa. Menires e antas, com castros e pontes romanas. Uma terra vigiada pelo soberbo castelo de Marvão, lá no alto da crista da montanha, a 867 metros de altitude. Sem esquecer Castelo de Vide, a “Sintra do Alentejo”.

O “ninho das águias”. Marvão, com a sua vila branca acastelada, surge como um lugar ímpar, magnífica obra humana, notável pela sua integração perfeita na paisagem, e recheada de motivos estéticos. No alto da montanha as muralhas do castelo são a continuação natural da crista rochosa. Um miradouro soberbo, em todas as direcções. Este é sem dúvida o lugar mais notável deste Parque Natural, candidato a património da UNESCO. Com 867 metros de altitude este é um dos cumes de maior altitude do Parque, entre uma série de outros relevos como a serra de Castelo de Vide (762 m) e a serra Fria (953 m), culminando depois nos 1025 metros do pico de S. Mamede, o ponto mais alto a sul do Tejo, que a neve chega a cobrir de branco nos Invernos mais rigorosos. São mais de 30 quilómetros de cumeadas paralelas, por 10 de largura, orientadas de noroeste para sudoeste, e separadas por vales mais ou menos amplos onde correm cursos de água como o rio Sever, que depois segue ao lado de Espanha sob ambientes mais selvagens. Este maciço, onde se encontram diferentes bacias hidrográficas, contrasta com o relevo suave e ondulado da peneplanície alentejana. A orografia chega a esculpir formas pouco vulgares em Portugal, como é o caso das extensas cristas quartzíticas que coroam as cumeeiras, e que se prolongam por quilómetros, na maior expressão geomorfológica de todo o Parque. Esta área expressa-se também na sua diversidade geológica, como assinalam os afloramentos de granitos, xistos, calcários e quartzitos. Isso reflecte-se em diferentes tipos de solo. Se juntarmos à receita as gradações climáticas, condicionadas também pelo relevo, resulta um coberto vegetal heterogéneo. Mas o homem tem uma palavra determinante, pois alterou o coberto vegetal original.

Uma paleta de árvores

O clima mais temperado no centro e norte do Parque, de influência mais atlântica, contrasta com a parte sul, de cariz mediterrânica. Tal manifesta-se, de uma forma geral, na presença dos carvalhos-negrais (Quercus pyrenaica) e castanheiros (Castanea sativa) mais a norte e a altitudes mais frescas, enquanto a sul dominam montados de sobro (Quercus suber), associados também à azinheira (Quercus rotundifolia). Nas baixas altitudes, não faltam as características oliveiras (Olea europea).
S. Mamede é uma das principais áreas produtoras de castanhas do País, a que não é alheia a famosa festa anual que Marvão dedica ao fruto. E como dignificam a paisagem os magníficos soutos onde moram árvores centenárias. Desde os ambientes outonais e invernais, quando mudam de cor e se despem, até à exuberância das suas flores e farta folhagem dos tempos mais quentes, os castanheiros dão vida às estações do ano.
Já o carvalho-negral imprime tonalidades que lembram territórios mais setentrionais. É ele que confere um cunho distinto à paisagem, já mais selvagem, do extremo norte do Parque. Mas também surgem carvalhos sob a forma de montado, particularidade pouco frequente em Portugal.
Mas há uma outra espécie de árvore, introduzida, que marca profundamente esta paisagem, sobretudo na zona central. As extensas monoculturas de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) assaltaram grande parte da serra de S. Mamede, contribuindo para a monotonia paisagística e natural, em detrimento das espécies nativas.
E um novo perigo espreita. As acácias (Acacia sp.), originárias da Austrália, são espécies exóticas infestantes, que depois de instaladas autopropagam-se sem ajuda humana. De crescimento rápido, formam matas densas, sobrepõem-se às espécies autóctones, e resultam em desertos de vida selvagem. São visíveis pequenos núcleos espalhados por S. Mamede, vestidos de amarelo na época de floração, mas sem que sejam removidos, evitando o pior, apesar de se estar num Parque Natural.

David Travassos 2006-06-14

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