A Ria
No Sotavento algarvio há um parque natural onde as andorinhas anãs e gaivotas de cabeça preta voam tranquilamente pelos céus. De Faro a Cacela Velha, lá vão elas por entre sapais e dunas infinitas de areia branca. Na Ria Formosa, a vida é tranquila para as espécies que cá vivem, mesmo quando se trata de aves migratórias.
Ao longo de mais de 50 quilómetros de Ria, formou-se um enorme canal natural, que corre paralelo ao mar, resguardado por istmos e enormes ilhas de areia. Quando a maré enche, a Ria fica navegável por pequenas embarcações de pescadores que durante o Verão, se dedicam a transportar turistas para a praia. Agora também há o reverso da medalha. Quando está baixa-mar, lá ficam os pequenos barcos dos pescadores em doca seca, ou melhor lodo seco.
Quem parece aproveitar bem estas alturas são os caranguejos que aos milhares, saem das tocas, mais precisamente dos buraquinhos escavados na areia, para invadirem as margens da Ria. Alguns turistas assustam-se com tremendo espectáculo, mas os pescadores chamam-lhes um figo, pois ali estão os petiscos, mesmo à mão de semear.
Quinta de Marim
É uma antiga quinta à saída de Olhão, transformada em sede do Parque Natural da Ria Formosa. Por cá, encontra-se um pouco de toda a fauna e flora da região, desde os caniçais até ao cão de água algarvio. Uma visita interessante para quem gosta de natureza, onde se aprende sempre um pouco mais. Entra-se e passa-se pelos tanques das salinas onde se produz o sal pelos métodos tradicionais da evaporação natural da água do mar. E ao lado destes, outros reservatórios aproveitados para a piscicultura onde camarões e búzios se amontoam, sem terem noção da importância que têm no equilíbrio do ecossistema. Mais adiante, chega-se ao juncal onde rãs e sapos se fazem ouvir, o que aliás não seria muito difícil de imaginar. Avança-se até ao centro de recuperação de aves e contemplam-se ao longe os patos selvagens. Felizmente aqui não há caçadores nem tiro ao alvo. Bendita reserva. Depois, marca-se encontro com os sempre brincalhões cães de água. Esta raça tipicamente algarvia, que como o nome indica, adora água, acompanhou durante muitos anos os pescadores na faina do peixe.
Continuando a explorar local, chega-se ao centro interpretativo, onde se obtêm todas as informações importantes, brochuras e folhetos. Continua-se pelo caminho de terra batida, para se encontrar mais abaixo o velho moinho de maré, que separa uma lagoa artificial da Ria. De fora, um velho pendurado num escadote pinta as paredes carcomidas pelo salitre. Sai-nos da garganta um “Boa tarde”, que não fica sem resposta.
Entra-se e encontram-se logo seis mós de pedra maciça. Parecem paradas no tempo, aguardando pacientemente que a maré baixe, para começarem a esmagar os grãos de trigo, transformado-os em farinha. É claro que hoje já não tem a função de moinho, apenas são utilizadas para exemplificar como funciona. Para os curiosos fica o aviso: cuidado com os dedos.
Sai-se, sobe-se umas escadas e explora-se o telhado, onde no terraço, se avista o estuário da Ria e toda a quinta. Ao fundo, no sapal da Quinta, um casal de cegonhas ensaia uma estranha coreografia, à medida que dão pequenos passos na água.
N'Dalo Rocha 2002-07-09