Com origem no século XV, o Paço de São Cipriano é o lugar ideal para as almas mais românticas e amantes da natureza descansarem. Os sinos anunciavam as seis horas da tarde e a noite de Inverno já se fazia sentir, tanto pela temperatura, quanto pela ausência de luz no horizonte. Cumpridas as indicações percurso com rigor, lá encontrámos o portão do Paço de São Cipriano, providencialmente situado defronte à Igreja de Tabuadelo.
Por um caminhito de terra batida continuámos, desfrutando do silêncio tão tranquilizador quanto intimidante – pelo menos àquela hora. Eis senão quando a estrada termina e se vislumbra, na penumbra, um enorme edifício acastelado, rodeados por campos, mata e jardins cuidados. O panorama era prometedor mas, perante o ar gélido da noite minhota, esquecemos a beleza misteriosa do espaço envolvente e apenas nos concentrámos … na lareira!
Viagem na história
Refeitos da viagem até Tabuadelo, freguesia rural de Guimarães, na manhã seguinte começámos realmente a apreciar o encanto desta casa senhorial, desde sempre nas mãos da família Santiago de Sottomayor.
O dia começa invariavelmente na “cozinha velha”, uma das zonas mais antigas da casa, onde provavelmente ficariam alojados os peregrinos a caminho de Santiago, já que o solar possuiu até ao séc. XIX, uma Albergaria. O pequeno-almoço frugal é tomado à lareira, com vagar, embora não tarde que a curiosidade nos leve a explorar tanto o edifício como a propriedade que, com os seus 80 ha não deixa mãos a medir.
Logo no interior, os sete quartos com casas de banho privativas, quase todos com camas de dossel, dispensam luxos, mas não pormenores de encanto, como chaise longues de veludo, colchas de bom algodão ou uma lareira acesa. O mobiliário e objectos de decoração – encontram-se aqui verdadeiras relíquias - são antigos e, caso não façam parte da casa do Paço desde sempre é porque foram herdados de um outro palacete em Leça da Palmeira, entretanto convertido no Museu da Quinta de Santiago.
A biblioteca, por seu lado, promete noites de descobertas e leituras intermináveis com as suas vastas centenas de publicações antigas, enquanto que a “cozinha velha” é o cenário mais que perfeito para longas conversas à lareira.
Sempre prontos a partilhar destas tertúlias com sabor a história, estão os proprietários do Paço de São Cipriano, que habitam a ala oposta (o edifício é de planta em “U”). Fazem questão - e ainda bem – de nos demonstrar que quem escolhe este local para pernoitar, escolhe também uma casa de família, com personalidade e muita, muita tradição. Tanto que nos contam a brincar: “Quando vêm para cá australianos olham para tudo isto como se pertencesse à Pré-História!”
Quanto a nós, mais habituados a datas recônditas deliciamo-nos com o relato de lendas e dos lendários amores e desamores das personagens principais da família Santiago de Sottomayor, de que Dom João, o actual proprietário, é patriarca.
Sara Raquel Silva 2006-03-01