Paintball nocturno em Mafra

Guerra às escuras. Isto aqui é paintball, mas não tem nada a ver com os do costume. De noite os inimigos confundem-se com eucaliptos, os obstáculos não estão sinalizados e fica tudo mais difícil. Mais divertido, portanto.

Primeiro cenário. Por entre trincheiras e bidões os Rambos procuram posicionar-se no terreno. De uma extremidade à outra o campo nem terá 60 metros, mas parece muito mais. Note-se que é de noite, e a visibilidade é má ao ponto de não se conseguir ver bem a base adversária, uma casa de madeira. Isto para não falar dos buracos, arbustos e outros obstáculos que no escuro se transformam em enormes armadilhas. É melhor correr devagar, só para evitar entorses ou joelhos esfolados. O árbitro grita pelo megafone. "Tirar borboletas das armas". A frase não é lá muito guerreira mas, ainda assim, a tensão começa a subir. Os elementos da equipa olham-se pela última vez e acenam gestos de cumplicidade com a cabeça para relembrar a estratégia de posicionamento no terreno. "Em jogo", é o mote. Como coelhos em fuga, os rangers saltam e correm aos zigue-zagues com a arma nas mãos até à primeira barreira de bidões, trincheira ou o que aparecer. Também há os mais precavidos que ficam na base a fazer mira. Inflectindo para norte e sul os soldados vão ocupando posições. Ganhou-se metros mas nem sinal do adversário ou de qualquer luz fluorescente na penumbra. É assim que cada equipa está identificada, com um tubo de plástico com gás fluorescente que se prende ao peito. Como se fosse uma bandolete que as raparigas compram nas feiras. O tempo está húmido e apenas um pensamento parece comandar o cérebro; Onde estão eles? E nós?

Atrás de alguns bidões surge finalmente o primeiro alvo humano. Começa a correr, mas as rajadas de balas, ou melhor bolas, não perdoam. E mesmo que o homem seja abatido de costas, é morto, afinal isto é só um jogo, e ninguém gosta de perder, por isso o espírito de oficial e cavalheiro não conta. Depois, começa o tiroteio de parte a parte e um a um os jogadores abandonam o campo sujos de tinta. Cá fora, descobre-se quem matou quem e o que falhou na estratégia. E fuma-se um cigarro, para quem gosta.

Cenário dois: Mato Cerrado

Se no primeiro cenário via-se mal, neste simplesmente não se vê. E, só para ajudar à festa, o campo está cheio de pinheiro e eucaliptos, troncos, arbustos e, aqui e ali, protecções de madeira para nos barricarmos. O árbitro dá o sinal e avança-se. Qualquer barulho suspeito leva de imediato o dedo ao gatilho. O único alvo visível são as luzes, autênticos pirilampos laranjas e amarelos. Sempre que vir uma dispara-se até que alguém se acuse. É que depois de levar com o segundo tiro nem o masoquista mais ferrenho gosta de fazer de saco de pancada e acaba por gritar em desespero "Homem morto". Há jogadores com tendências de camaleão que dobram o cotovelo junto ao peito para ocultarem a luz. Os árbitros estão atentos, mas nem sempre vêm o disfarce. É melhor ter cuidado para não morrer à traição. E se não tiver o dedo muito ligeiro no gatilho, verá que das 100 bolas iniciais ainda lhe restam algumas. Se não, vá ás compras e peça mais uma recarga.

N'Dalo Rocha 2002-01-09

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