Quem visita o Alentejo tem que quebrar os horizontes quase sempre pequenos com que avalia o mundo. Aqui tudo é grandioso, a começar pela paisagem natural, que se alonga por quilómetros de terra doirada se é Verão, mas verde e viçosa no Inverno.
Os extensos campos de searas, que enchem a vista a quem por aqui vem, também enchem o estômago às diferentes espécies de aves que neles se refugiam. Para os apaixonados pela ornitologia, (para que conste é a parte da zoologia que se ocupa das aves) este local é ideal para conhecerem os pássaros que sobrevoam estas planícies. Se não o for e quiser saber um pouco mais tem remédio santo.
Homens e pássaros
Na zona de Castro Verde, classificada como “Zona de Protecção Especial”, a Liga para a Protecção da Natureza organiza passeios guiados a pé ou em todo-o-terreno para a observação da avifauna das estepes. Esta associação leva o assunto a serio e tem um projecto de gestão de terrenos para a conservação de aves ameaçadas.
É que, com a introdução das ceifeiras mecânicas, em detrimento dos métodos tradicionais, algumas espécies encontram-se em declínio, já que estas máquinas arrasam com os ninhos à sua passagem. O mesmo se aplica à caça furtiva e indiscriminada e à pilhagem de crias e ovos. Gestos inconsequentes que podem acabar com uma espécie…
Mas, vá lá, nem tudo é mau. Os homens alteraram a paisagem e, ironicamente, as aves passaram a depender da intervenção humana. Como? Ao cultivarem a terra os agricultores não permitem o avanço do mato, conseguindo manter a paisagem e as tradições e consequentemente as aves. Elas agradecem.
Quem são eles?
De acordo com a época do ano, o interior sul do país é visitado por várias espécies de aves. Mesmo sem se ser especialista, se a ideia é ir espreitá-las, convém saber quais são. Tome-se nota: grous, pegas azuis, tartaranhões-caçadores e cortiçóis-de-barriga-preta, entre outros.
Estes nomes podem não lhe dizer muita coisa mas depois de ver (bem de perto, apesar de estar muito longe) estas espécies mudará de ideias. Isto com a ajuda de binóculos e guias. Mas se não chegar, poderá também utilizar os telescópios e até alugar as bicicletas todo-o-terreno. Material não falta. Pássaros em que nem sempre, claro.
Estes nomes podem não lhe dizer muita coisa mas depois de ver estas espécies mudará de ideias. Isto com a ajuda de binóculos e guias. Mas se não chegar, poderá também utilizar os telescópios e até alugar as bicicletas todo-o-terreno. Material não falta. Pássaros é que nem sempre...
Vamos a eles
Na Reserva Biológica de Vale Gonçalinho a expectativa é muita. O jeep já está pronto e a vontade de ver estes seres de lá do alto é já uma fixação. À medida que se avança pelos trilhos cada vez mais longe de estradas e caminhos principais, começam a aparecer diferentes espécies de aves no seu habitat natural.
O dia está lindo. Apesar do Outono ter entrado em grande, o sol brilha e o céu vestiu-se de azul. Com o tempo tão limpo adivinha-se um dia proveitoso confirmado pelo chilrear de pássaros.
Ao fundo, um peneireiro-das-torres (conhecido na região como francelho) sobrevoa calmamente um abrigo abandonado. Mas eis que essa calmaria aparente se transforma num voo picado em direcção ao solo.
O que terá visto este pequeno falcão para se lançar daquela maneira? Alimento será a resposta certa. E lá vai ele todo satisfeito com a sua presa no bico. Forte aliado dos agricultores, não lhe escapam escaravelhos, centopeias e gafanhotos. Tudo ingredientes que fazem parte da sua dieta diária, o que o torna num desinfectador natural de pragas que ameaçam as culturas.
Continuando o percurso, é difícil, (mesmo a quem for mais distraído) não reparar nos gigantescos ninhos construídos nos alto dos postes e telhados. Se olhar com atenção descobre que nalguns sítios estes ninhos são autênticos duplex, com o andar superior a pertencer às cegonhas e o rés-do-chão aos pássaros mais pequenos que não precisam de tanto espaço. Satisfeitos ambos os inquilinos, nada há a reclamar.
Paula Oliveira Silva 2001-11-07