O teatro dos mais novos

Chamam-se Bernardo, André, Joana ou Filipa. Têm entre os cinco e os oito anos e já querem ser actores. Uns mais tímidos e acanhados, outros mais vivos e espevitados, mas todos vibram com as aulas de teatro infantil.

Até parece fácil vê-los no palco a representar a merecida peça do fim de curso. Os mais precipitados poderão dizer que se trata de brincadeira de crianças. É certo, mas para não sermos injustos no julgamento, poderemos dizer que se trata de uma brincadeira que estes pequenos levam mesmo muito a sério. Afinal, por detrás da peça estão horas a fio de trabalho árduo, onde riram, gesticularam, improvisaram, cantaram, decoraram textos e suaram bastante até aprenderem as bases para “representar” na perfeição o seu papel.

Conhecer os artistas

Na primeira aula do curso os pequenos artistas ainda estão retraídos. Sentados no chão da sala junto aos actores José e Natasha travam o conhecimento com o resto do grupo. Neste momento o mais importante é romper a barreira da inibição, dando-se assim início a uma série de jogos e coreografias onde o contacto físico, a expressão corporal e a fala em público são privilegiados.

Sentados sobre os joelhos, começam a brincar ao combóio, fazendo precursão rítmica batendo com as mãos no chão, que entretanto começam a aquecer e ficar vermelhinhas ao mesmo tempo que vão perdendo a vergonha de fazer brincadeiras esquisitas em frente aos colegas. Depois, ao som da música, já em fila indiana, fazem mesmo o tal comboiozinho à volta da sala, que entretanto acaba por descarrilar. Ofegantes, deitam-se no chão para dar início a outro jogo. A estátua.


Agora, estão todos deitados no chão. Esperam até que um dos actores lhes toque, enquanto grita “Pif”. Imediatamente, levantam-se e começam a fugir, a gritar “não, não me toque”, demonstrando algum temor, improvisando algum medo, até serem novamente tocados, “Paf”, e voltam à posição de estátua.

Outra das tarefas é o jogo das cadeiras e das mesas, onde todos se tocam, como se estivessem a esfregar uma mesa.

Como explicam os actores, estes exercícios são “fundamentais nas primeiras aulas pois ajudam a quebrar o gelo e o medo que as crianças têm de se exporem publicamente”. E de facto, a pior tortura para qualquer criança é expor-se ao ridículo em frente dos colegas.

A pouco e pouco, os professores actores tiram notas sobre os pupilos, de modo a trabalharem melhor sobre a personalidade de cada um, potencializando as suas capacidades individuais. Por exemplo, ficam a saber que a Joana é envergonhada e não gosta de falar em frente ao grupo, por isso já sabem que nas próximas vezes vão ter que puxar mais por ela. Ou então ficam a saber também que a Lili tem muita imaginação e que promete muito.

Apurar a técnica

O ambiente deste curso é divertido, porém todas as brincadeiras que por aqui se fazem têm uma consequência ou razão lógica de ser.
Brincar ao medo é mais outro exercício onde as crianças conseguem treinar o que se chama tecnicamente em teatro, o positivo e o negativo. Ou seja, a capacidade para no mesmo segundo transformar alegria em tristeza, o riso em lágrimas ou a surdina em gritos.

Desta vez, a vítima da fúria infantil é um dos actores que sentado na cadeira, espera ser intimidado para sentir medo. Supostamente, os pequenos artistas deveriam começar a falar baixo até que de repente desatam aos berros. Só que os mais atrevidos dispensam o diálogo e não hesitam sequer em passar à agressão física, ou seja, erguem a mão e pimba, lá vai soco. Não dói, mas que assusta, assusta, ou pelo menos surpreende. A outra actriz acode o colega enquanto grita “meninos, não é permitido bater” mas o mal já está feito. Provavelmente deve ser a raiva contida contra aquele vizinho ou tio muito chato que a sua mãe insiste em convidar lá para casa. Enfim, vá-se lá saber o que lhes passa pela cabeça.

Todavia, não se dão só piparotes nestas aulas. Também podemos ser surpreendidos por momentos de grande imaginação, quando é improvisado um palco de marionetas e os traquinas, com pequenos fantoches que se encaixam nos dedos, improvisam uma cena. Parece que estão a brincar às bonecas, mas criam momentos teatrais, amadores claro, mas criam. É que esta foi outra das formas encontradas pelos actores para estimularem o diálogo em frente à plateia e normalmente, resulta, até com os mais tímidos.

N'Dalo Rocha 2002-10-08

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