O mundo em sintra

Começa-se pelo velho Lawrence de que Byron tanto gostava e pode-se acabar a comer comida brasileira. Pelo meio, vêm-se fontes mouriscas, memórias de tradições maçónicas, brinquedos de todos os tempos e pintura contemporânea. E, claro, comem-se queijadas.

O roteiro ideal para um passeio em Sintra começa com a hospedagem no mais antigo hotel da península ibérica, o mítico Hotel Lawrence’s poiso elegante de figuras históricas da Política e das Artes como Lord Byron, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e mesmo a Rainha Beatrice da Holanda, a “globe trotter” Madeleine Albright, que se hospedou ali em Agosto de 2000 quando da sua viagem oficial a Portugal, e o Prémio Nobel irlandês S. Heaney, em visita oficial em Maio passado. Erguido em 1764, o local já foi conhecido como Hospedaria Inglesa e Estalagem dos Cavaleiros e teve vários proprietários. Após décadas de abandono e mais de 10 anos de renovação impecável, uma família holandesa, Jan e Coreen Bos, reabriu o espaço em 1999, com 11 quartos e 5 suites decorados individualmente no estilo romântico, um restaurante de alto nível, adega e diversos recantos aconchegantes com lareiras e vista para a serra. A partir daí, a visita pelo centro histórico de Sintra pode começar com um inusitado passeio guiado na Quinta da Regaleira, um misterioso palácio construído no início do século XX pelo abastado “barão” do café no Brasil, António Augusto Carvalho Monteiro e há poucos anos recuperado. Rodeada por jardins seculares, percursos labirínticos, grutas e poços subterrâneos, a Quinta da Regaleira é uma fabulosa mistura de estilos e construções – gótico, neo-manuelino e renascentista –, assinada pelo arquitecto italiano Luigi Manini (responsável pelo Scala de Milão e pelo Palácio do buçaco). Actualmente propriedade da Câmara Municipal de Sintra, com apoio da Fundação CulturSintra, que organiza todos os dias do ano visitas guiadas com duração de duas horas, a Quinta da Regaleira guarda uma aura mística relacionada com a Maçonaria e a Arte dos Cavaleiros do Templo, e o percurso da visita aponta vários locais tidos por iniciáticos, cheios de simbologia maçônica, templária e cristã.

Depois deste passeio esotérico, o caminho agora leva ao centro histórico da vila onde se situa o Palácio Nacional de Sintra, com suas imponentes chaminés, ex-libris da região. Fruto das obras de dois reinados portugueses - de D. João I, no início do século XV, e de D. Manuel I, no começo do século XVI -, o palácio é a mais importante construção áulico-realenga do país e possui a mais significativa colecção de azulejos mudéjares do mundo. Obra marcante do período do nascimento e queda do império, o Palácio Nacional de Sintra serviu de palco também para o desfile das mais importantes figuras das Artes e Letras nacionais como Luís de Camões, Gil Vicente, João de Barros ou Luísa Sigea. Poucos metros além fica o Museu do Brinquedo com uma colecção recolhida ao longo de 50 anos pelo coleccionador João Arbués Moreira. Nos três andares do edifício estão em exibição brinquedos dos séculos III a II a.C., séculos XVII a XIX, do período da Revolução Industrial e vários conjuntos de comboios, barcos, automóveis, aviões, personagens de circo, brinquedos artesanais, bonecas, jogos e livros. E até 31 de Outubro estará patente uma exposição especial “Barbie, Retrospectiva Histórica 1959-2001”, com os mais variados exemplares da famosa boneca americana. Antes de prosseguir a visita pelo centro histórico de Sintra, há que se fazer uma paragem para o almoço e as opções são várias mesmo na praça principal ou na Quinta da Regaleira, onde há o Restaurante da Quinta da Regaleira, com menu fixo. Pode-se escolher ainda o Café Paris, no Largo do Palácio, instalado num edifício ocupado antigamente pelas Casas dos Templários – os primeiros donatários de Sintra -, que incluíam também o prédio onde hoje se encontra o Hotel Central. Outra opção é o moderno Hockey Caffe, também na Praça da República, ou então a Piriquita, na rua das Padarias, um tradicional café local com 140 anos de existência onde se confeccionam os famosos “travesseiros”. Para um almoço mais informal, o café-bar Estrada Velha também é uma boa escolha, com as especiais “francesinhas” no menu. Para uma sobremesa tipicamente portuguesa a morada certa é a Fábrica das Verdadeiras Queijadas da Sapa, sediada desde 1880 na rua Volta do Duche, 12. De volta ao passeio, pode-se apanhar uma carruagem de cavalos junto ao Pelourinho, na Praça da República, e seguir calmamente pelas ruas da vila, entrevendo as várias fontes de água fresca – como a fonte Mourisca -, espalhadas aqui e ali pelos passeios, e os parques e os jardins ao redor, como o Parque da Liberdade ou o dos Castanheiros Para completar o dia é importante visitar o Sintra Museu de Arte Moderna. Numa bela mansão restaurada, antigo Casino de Sintra, está guardada a fantástica colecção Berardo, com mais de 700 obras de arte moderna da segunda metade do século XX. Um dos principais núcleos da colecção consiste em trabalhos dos anos 20 e 30 de artistas do grupo denominado “Cercle et Carré” e do “Abstraction Création”, com nomes como Jean Arp e Carls Bucheister. Duas obras de Miró, uma de Giorgio de Chirico e um magnífico Picasso são as coroas da colecção que também inclui autores surrealistas como Max Ernst e Man Ray entre outros. Mas as obras em exposição ainda apresentam artistas dos movimentos existencialistas, minimalistas, abstracionismo europeu e americano, Pop Art, esculturas, objectos e instalações de artistas americanos e europeus, principalmente ingleses como Tony Cragg, vencedor do prémio Turner em 1988, e obras variadas dos anos 90 com autores como Fona Era, Jeff Koons, Peter Doig entre outros representados. E para terminar o dia, uma boa sugestão é um jantar no Restaurante-Galeria Orixás a poucos quarteirões do museu. Aí, entre a variadíssima colecção de arte indígena e arte contemporânea produzidas no Brasil, pode-se experimentar uma gama de sabores culinários brasileiros, com especial destaque para a comida baiana, em serviço “à la carte” e “buffet”, ao som de música ao vivo. E, assim, num dia só se foi de Byron ao Brasil.

Nysse Arruda 2001-08-15

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