Quem desce a serra de Aires vindo da Batalha vê uma enorme mancha de água no vale de Mira-Minde. Olhando para os mapas, não é suposto aquele lago existir. Mas ele está lá. A algumas dezenas de metros da margem irrompem anarquicamente da água silvas, castanheiros e oliveiras. Não são oliveiras aquáticas ou mesmo uma nova espécie de árvores. As oliveiras e as restantes árvores estão lá sempre, a água é que não.
Olhando melhor, não se trata sequer de um lago, mas sim de um polje, um lençol de água subterrâneo que inunda o vale sempre que chove muito. E por isso, no pico de Agosto o falso lago desaparece, ficando reduzido a uns pequenos charcos de água barrenta. O mesmo local onde de inverno se faz canoagem, transforma-se numa pista de aterragem de parapente ou num percursos de btt.
Como aproveitar
Com cerca de 2,5 quilómetros de cumprimento e mais de 800 metros de largura, o mar de Mira-Minde, como é conhecido na zona, pode proporcionar muitas horas de gozo aos praticantes de desportos aquáticos. Com uma profundidade máxima que chega a ser superior aos 15 metros na zona central, e perto das margens a rondar os quatro metros, reúne óptimas condições para o mergulho com botija. Já imaginou descer até sete metros de profundidade e entrar dentro de um poço de água, que curiosamente está cheio, e continuar a descer mais ainda pelas estreitas paredes?
Não tema, perigos desconhecidos como o monstro de Loch Ness estão fora de hipótese. É apenas preciso ter cuidado com os arranhões das silvas, enquanto se nada por entre chousos (pequenos muros de pedra que servem para delimitar propriedades), ou se segue o tronco de um carvalho desde a copa emersa, atá à raiz submersa, dez metros mais abaixo.
A canoagem é outra das melhores formas de aproveitar este universo invulgar. Embora de dimensões não muito grandes, é preciso algum músculo no braço para contrariar a pequena corrente gerada em dias de vento. Por vezes algumas silvas ou ramos de árvores mais impertinentes insistem em arranhar o casco do cayake. Mas com uma remada mais vigorosa, deixam de constituir qualquer obstáculo.
Vida Selvagem
A paisagem do polje de Mira-Minde parece que foi decalcada do romance de W. Faulkner “O Homem e o Rio”, onde o autor descreve tão bem as cheias do Mississipi, embora este lago não tenha o carácter violento e impiedoso do grande rio americano. Mas não se desiluda se não encontrar pessoas nas copas das árvores. Em vez de gente, descobrirá um exército de pequenos insectos que servem de cadeia alimentar aos girinos, também conhecidos como peixes-rã. Em Invernos de muita chuva como foi este, chegam a ser milhões os peixes-rã e concentram-se ao longo das margens. Devido à hiper-abundância de alimentos os maiores chegam a ter cerca de 10 cm, desde a cabeça até à ponta da cauda.
O mar de Mira-Minde gera toda uma fauna única para além de atrair visitantes longínquos. As gaivotas não se furtam a voar mais de 50 km da costa para passarem alguns meses deliciadas a caçar, principalmente os famosos peixes-rã.
Além das gaivotas, este local é um bom observatório de outras aves, como os guarda-rios, os galeirões ou os patos bravos que aproveitam as excelentes condições e por aqui se fixam durante os meses em que há água em quantidade suficiente para se alimentarem.
Mas se gosta de observar animais, aproveite para descobrir também os répteis. Quem tiver paciência de se aproximar da margem e ficar a observar a água durante alguns minutos terá possivelmente a sorte de ver tritões, salamandras e cobras de água. Contrariamente ao que se possa supôr são inofensivas e mesmo que mordam não faz mal porque o seu veneno não é perigoso. Portanto, com um pouco de destreza e rapidez de pulso, é possível tentar agarrar alguma sem medo.
N'Dalo Rocha 2001-05-16