PORTUGAL FAZ-LHE BEM

O Corvo

Copos e petiscos debaixo da asa da Mouraria

A multicultural Mouraria ganhou mais um recanto do mundo desde que o alemão Hans Bipp e a austríaca Signe Hause abriram O Corvo no Largo dos Trigueiros. Um poiso para desfrutar o melhor do bairro, seja numa tranquila esplanada ou em duas salas onde o castiço e cool se misturam. Entre alfacinhas de gema e turistas, mesas de taberna e cadeiras de cinema, cachaços de porco e focaccias, este café traz boa onda no bico.

Cada um a seu tempo, tanto Hans Bipp, 57 anos, como Signe Hauser, 27, apaixonaram-se de tal forma pelo nosso país que acabaram a viver por cá. Ele deixou a empresa de rent-a-car que tinha em Frankfurt para comprar o Pois Café e ela meteu o curso de gestão social na gaveta quando começou a trabalhar naquele espaço de Alfama. Depois de quatro anos como patrão e empregada, os dois tornaram-se sócios ao abrirem O Corvo, no Largo dos Trigueiros, em pleno coração da Mouraria.

Inaugurado em março de 2016, este café aproveitou o espaço do antigo restaurante Os Galos na Mouraria, mas tornou os dois antigos pisos num só e criou uma esplanada que entrou diretamente para a lista das melhores em Lisboa. Não só pelo enquadramento, feito de casario antigo, um pequeno chafariz, uma árvore centenária e vários vasos de flores, mas sobretudo pelo espírito da casa que favorece o convívio entre as gentes do bairro e os turistas que por ali passam.

Uns e outros são convidados a deixarem-se ficar, desfrutando sem pressas do caldo de culturas que é a Mouraria. A começar pelo próprio O Corvo, onde além de Hans e Signe também há um cozinheiro português, o Ruben, um empregado brasileiro, o Alex, e até uma pasteleira alemã, a Julliane, que todos os dias faz uns deliciosos bolos caseiros. Se ficou com água na boca, terá de ler este artigo até ao final porque antes das iguarias vamos conhecer os cantos à casa.

A Mouraria das conversas e dos sorrisos

É tão difícil resistir à nova esplanada que apetece ficar logo ali, apreciando o ritmo pausado de um largo onde mais facilmente se ouve a conversa das vizinhas e as brincadeiras das crianças que o zumbido dos tuk tuk, por enquanto ainda mantidos ao longe. Mas mesmo que não resista ao impulso, não deixe de conhecer o interior d`O Corvo, também ele surpreendente e sedutor. Formando uma espécie de U invertido, o espaço divide-se em duas salas que, à primeira vista, fazem lembrar as antigas tabernas mas logo revelam um misto de cool e castiço.

A decoração é feita com peças antigas e cheias de estórias, como as antigas cadeiras da Cinemateca Portuguesa ou os dois corvos (trazidos por Signe Hauser da Áustria) que recebem os visitantes à entrada. Passando por um balcão corrido e pela cozinha, chegamos à outra divisão, também ela decorada com peças vintage, cadeirões antigos, mesas com tampos de mármore, um louceiro do tempo das avós e garrafas coloridas que contrastam com o cinzento dominante das paredes.

Ao fundo desta sala, a rua (e quem por lá passa) espreita por uma janela, enquanto no lado oposto sobressai uma fotografia a preto e branco assinada pela artista britânica Camila Watson (cujo ateliê funciona no mesmo edifício) que mostra o quotidiano da Mouraria. Junto às casas de banho, outras dezenas de retratos tirados a atuais e antigos moradores do bairro compõem um grande mosaico com muitas rugas mas ainda mais sorrisos. Se, à saída, se cruzar com um deles não será mera coincidência.

Provar o mundo a qualquer hora do dia


Os comes e bebes d`O Corvo, tal como a Mouraria, também falam muitas línguas. De facto, tanto encontramos várias opções de focaccias (pão de origem italiana recheado com os mais diversos ingredientes), como brandade de bacalhau ou cachaço de porco com molho teriaki e batata doce assada. A estes juntam-se outros petiscos para partilhar, além de saladas e hambúrgueres no prato. Alguns são criações do consultor gastronómico da casa, Hugo Dias de Castro, atual sub-chefe do restaurante Tabik, que faz questão de privilegiar os produtos frescos e biológicos.

Aos almoços há sempre um prato do dia diferente (quando passámos por lá era esparguete de mozarella de Bufala com agrião), muitas vezes de inspiração internacional, e aos fins de semana, das 10 às 17 horas, servem dois tipos diferentes de brunch, consoante a vontade do freguês. Se chegar fora dos horários de refeições não se preocupe porque enquanto a casa estiver aberta (das 12h00 às 23h00; encerra segunda feira) a cozinha também estará. Para compor o estômago ou beber a solo também existe uma lista extensa e variada que vai dos sumos naturais às bebidas brancas, passando pelas cervejas, vinhos e cocktails.

Como prometido, guardámos os bolos caseiros para o fim. Todos os dias saem três ou quatro do forno, cada um mais tentador e surpreendente que o outro, como o bolo de sementes de papoila, a apfel strudel e o cheese cake de receita alemã. A oferta de sobremesas está relacionada com a origem germânica da pasteleira de serviço, uma recém-licenciada em medicina que passa boa parte das férias na cozinha d`O Corvo. Neste caso, a ideia passa por regressar a casa, mas cuidado Juliane que é fácil perdermo-nos de amores por Portugal! O Hans e a Signe que o digam. Pelo menos nos próximos tempos haverá mais uma cidadã do mundo a apaixonar-se todos os dias pelas ruelas da Mouraria. Os lisboetas (sobretudo os mais gulosos) agradecem.


 

Nelson Jerónimo Rodrigues 2016-06-21

Receba as melhores oportunidades no seu e-mail
Registe-se agora

Boa
Vida